Aida Franco de Lima – OPINIÃO
A Prefeitura de Foz do Iguaçu queria anunciar 591 vagas de emprego no seu Instagram. Uma informação importante, concreta e que, sozinha, deveria ser capaz de chamar a atenção de quem procura trabalho. Mas alguém parece ter concluído que emprego não bastava. Era preciso uma isca. E a escolhida foi uma mulher: primeiro, uma silhueta feminina em pose sensual, acompanhada do convite “Adivinhe quem vem aí”. Depois, ao arrastar a tela, surge uma montagem de Beyoncé segurando uma carteira de trabalho. Se a intenção era fazer humor, conseguiu tropeçar em uma piada sem graça, fora de moda.
O primeiro tropeço está no uso da imagem de uma pessoa mundialmente conhecida numa peça institucional. Não estamos falando de uma brincadeira entre amigos, mas da comunicação oficial de um órgão público. A montagem transforma a cantora em garota-propaganda de uma campanha municipal sem que haja, ao menos na publicação, qualquer indicação de autorização. Será que a prefeitura de Foz fechou contrato com a diva pop e não fomos informados? A celebridade funciona como chamariz para vender — neste caso, não um produto, mas a própria mensagem da Prefeitura.
Mas há um erro ainda mais incômodo. Antes de Beyoncé aparecer, o que vem é o corpo de mulher. Sem rosto, sem nome, sem identidade. Apenas contorno, cabelos, cintura, quadril e pose. É quase uma tradução visual do velho mecanismo publicitário que reduz a mulher a vitrine: primeiro oferece-se o corpo para capturar o olhar; depois entrega-se a informação. Poderia ser um carro, bebida, roupa, uma boate, uma bala, o que for! Mas é uma espécie de clickbait institucional. Como se 591 oportunidades de trabalho não fossem notícia suficiente e precisassem de uma silhueta sensual para ganhar algum interesse. Primeiro atiça-se a libido, depois se oferece a vaga. No anzol, o corpo feminino; na ponta da linha, uma carteira de trabalho.
E então vieram os comentários. Quando mulheres questionaram a escolha, houve quem preferisse atacar não o argumento, mas a idade delas. “Velhas” torna-se a pedra mais fácil de atirar quando faltam argumentos. O etarismo, aliás, tem uma ironia particularmente cruel: é preconceito contra o próprio futuro. Quem usa a velhice como insulto parece apostar numa única maneira de jamais pertencer ao grupo que hoje despreza — não viver o suficiente para envelhecer.
Uma campanha de emprego deveria falar de autonomia, oportunidade, dignidade e futuro. Em vez disso, conseguiu abrir uma discussão sobre objetificação feminina, uso de imagem e etarismo. Talvez aí esteja a maior contradição: para anunciar portas que deveriam se abrir, a comunicação pública abriu portas do porão de um tipo de publicidade e resgatou de lá fórmulas vencidas. Portas as quais parte da sociedade está lutando para trancar, que na verdade jamais deveriam ter sido abertas. Feminicídios, violência. Uma coisa está ligada diretamente a outra. Transformar o corpo da mulher em objeto de venda é o ‘apito de cachorro’ para quem ainda acha que ‘manda quem pode e obedece quem tem juízo’.
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