H2FOZ
Início » Meridianos » Vorcaro: o Robin Hood… Só que não

Meridianos

Vorcaro: o Robin Hood… Só que não

O banqueiro Daniel Vorcaro vestiu a casaca de herói para distribuir dinheiro fácil e sujo a uma elite que vive em um reinado de mordomias, sustentado pelas contribuições surrupiadas dos plebeus.

6 min de leitura
Vorcaro: o Robin Hood… Só que não
O banqueiro se vestiu de Hobin Hood para tirar dinheiro dos mais pobres e entregar à elite do País, em troca de vantagens bilionárias. Foto: Gemini

Aida Franco de Lima – OPINIÃO

Robin Hood é um herói da mitologia britânica, um fora da lei que roubava da nobreza para dar aos pobres. Teria vivido no século 12, durante o reinado de Ricardo I e das Cruzadas. No Brasil, surgiu um Robin às avessas. Ele não tira dos ricos para distribuir aos miseráveis. Faz o caminho inverso: drena aposentadorias, fundos previdenciários, investimentos populares e dinheiro público para abastecer os salões climatizados da elite política, jurídica e financeira de Brasília. Também para contratar “modelos” de luxo para alegrar festas particulares em iates, hotéis e mansões de luxo. É o mesmo que gastou 20 milhões com a festinha de 15 anos de sua filha e cerca de 22 milhões com seu noivado. Noiva essa que terminou o conto de fadas assim que príncipe da gastança foi para o xilindró.

O bosque de Sherwood virou um condomínio de luxo. E enquanto trabalhadores contavam moedas no fim do mês, o banqueiro Daniel Vorcaro distribuía favores como um senhor feudal distribuía terras aos aliados da corte. O cofre não era medieval. Era bancário. E o assalto não acontecia na estrada. Mas dentro das engrenagens do próprio sistema financeiro.

  • Brasília parece caminhar em câmera lenta sobre um campo minado. Não apenas pela prisão de Vorcaro, mas pelo conteúdo dos celulares apreendidos com ele, com o cunhado, com o pai e com integrantes da rede investigada. Telefones que, segundo investigadores, funcionam como mapas subterrâneos do esgoto do poder brasileiro. Pequenos cofres digitais capazes de comprometer empresários, políticos, banqueiros e até ministros.
  • No meio da trama aparece até um “sicário” — nome elegante para o velho matador de aluguel. Um executor ligado ao esquema que mal chegou ao sistema prisional e já apareceu morto. O enredo parece exagerado até para uma série ruim de streaming. Mas a realidade brasileira frequentemente humilha a ficção.

Até o momento, segundo a Polícia Federal, Vorcaro teria distribuído cerca de R$ 146,5 milhões em propina ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. Não eram agrados discretos. Eram apartamentos de luxo, operações financeiras suspeitas e relações descritas pela investigação como simbióticas. Em um dos episódios revelados, Paulo Henrique Costa teria levado a família para escolher imóveis enquanto dizia ao banqueiro que “as vidas de ambos estavam juntadas”.

E estavam mesmo. Unidas pelo elevador privativo do dinheiro público. Enquanto isso, o BRB teria despejado aproximadamente R$ 16,7 bilhões em operações ligadas ao Banco Master. Desse total, ao menos R$ 12,2 bilhões são considerados suspeitos pelos investigadores. Uma enchente de dinheiro estatal irrigando um castelo financeiro erguido sobre areia movediça.

E os presentes distribuídos pelo “Robin Hood” não paravam nos bancos. Segundo áudios revelados pela imprensa, cerca de R$ 61 milhões teriam sido destinados ao financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro. Um longa-metragem patrocinado não por bilheteria, cultura ou incentivo transparente, e sim pelo hálito quente das relações perigosas entre poder político e capital financeiro. Enquanto hospitais mendigam verbas, o cinema ideológico ganhou um mecenas bilionário.

Já a Rioprevidência — fundo ligado à aposentadoria de servidores públicos — aplicou cerca de R$ 970 milhões em títulos relacionados ao Banco Master. Dinheiro de trabalhadores que passaram décadas contribuindo para garantir uma velhice digna e que acabou orbitando em torno de um banco hoje investigado por fraude bilionária. A aposentadoria do povo virou combustível para um cassino financeiro VIP. O ex-governador Cláudio Castro, nesta semana, mais uma vez acordou com o “toc-toc” da polícia no seu castelo, tendo sido identificado o aporte de R$ 970 milhões da Rioprevidência, já nos dias em que o Master se mostrava como um castelo de cartas.

No Congresso, as engrenagens também giravam lubrificadas. O senador Ciro Nogueira apresentou a chamada “Emenda Master”, proposta que elevaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito). Na prática, um aumento de 300% no colchão de proteção para investidores caso o banco quebrasse.

Publicidade

Era como ampliar o tamanho dos botes salva-vidas depois que o Titanic já havia batido no iceberg.

Segundo a Polícia Federal, em troca da articulação, Ciro teria recebido uma espécie de mesada variando entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais. O representante eleito transformado em assinante premium do sistema Vorcaro.

Mas talvez a parte mais simbólica de toda essa história seja a proximidade das investigações com o coração do Judiciário brasileiro.

O ministro Dias Toffoli chegou a assumir a relatoria do caso Banco Master no STF. Depois vieram revelações sobre conexões envolvendo o resort Tayayá, no Paraná, empreendimento ligado à família do ministro e posteriormente conectado a fundos e operações relacionados ao universo Master.

A Polícia Federal encontrou mensagens no celular de Vorcaro mencionando Toffoli e investigou movimentações ligadas ao resort. Documentos citam operações de aproximadamente R$ 35 milhões relativas à compra de participações no empreendimento.

Toffoli negou amizade íntima com Vorcaro e afirmou jamais ter recebido valores diretamente do banqueiro. Ainda assim, a crise se tornou tão grande que o ministro deixou a relatoria do caso.

O episódio produziu uma cena quase barroca: ministros do Supremo discutindo suspeição, enquanto mensagens de celulares, resorts de luxo, fundos milionários e viagens em jatinhos orbitavam os bastidores da investigação.

O “Robin Hood” brasileiro não distribui riqueza aos necessitados. Entrega apartamentos, filmes, viagens, influência, proteção política e proximidade institucional aos já poderosos — enquanto aposentados, correntistas e contribuintes permanecem como figurantes involuntários da maior tragicomédia financeira recente do Brasil.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

Quer divulgar a sua opinião. Envie o seu artigo para o e-mail portal@h2foz.com.br

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e fique por dentro do que realmente importa.


    Você lê o H2 diariamente?
    Assine no portal e ajude a fortalecer o jornalismo.
    Assuntos
    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente.

    Deixe um comentário