Os futuros de Foz

Para onde estamos indo e para onde deveríamos ir.

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Por José Elias Castro Gomes – OPINIÃO

Qual o norte do oeste paranaense? Ao menos teoricamente, Foz é quem deveria apontá-lo. Temos uma inegável vocação para capital regional, somos um poderoso imã de visitantes e turistas, ostentamos a rara capacidade de aglutinar interesses simultâneos de três países ligados por conexões fronteiriças e comerciais, possuímos riquezas naturais que estão entre as mais valorizadas do planeta, sabemos que não nos faltam motivos para sustentarmos crenças positivas sobre o futuro. Mas a obviedade de um futuro próspero esbarra em um presente titubeante, marcado por descuidos em investimentos e ações mal orquestradas que poderão ecoar em desarmonia no amanhã.

O descaso e a inação podem nos gerar um preço social mais caro a pagar do que as decisões incorretas. Sabemos que é um clichê, mas quando falamos em futuro não temos como deixar de pensar nas crianças. Sendo assim, quando temos um quadro de 4.000 crianças sem vagas nas creches municipais, que tipo de futuro podemos esperar? Os danos por esse desfalque lastimável são irreversíveis. Já diziam muito sabiamente os jesuítas (raciocínio confirmado pela moderna pedagogia) que um ser humano tem o cerne de sua formação consolidado até os sete anos de idade, portanto temos aqui um cenário de milhares de crianças iguaçuenses que estão crescendo fragilizadas em sua segurança, saúde e bem estar, o que irá desembocar em cidadãos com maior dificuldade em se afirmarem no contexto social em que serão inseridos. Isso sem falar das mães que passam a ter maior dificuldade em sair para trabalhar, deixando seus filhos sob a tutela de familiares e cuidadores improvisados e incapacitados.

Outra face do descaso atinge não só nossa cidade mas também os municípios vizinhos. O associativismo é o futuro em atividades de todos os campos, e não seria diferente na gestão pública, porém temos duas entidades certamente percebendo o papel de Foz como muito aquém em seu papel de aglutinador de forças regional: a AMOP (Associação de Municípios do Oeste Paranaense) e o Conselho dos Municípios Lindeiros ao Lago de Itaipu – Foz deu as costas para ambas. Além de estar inadimplente no pagamento das mensalidades por vários anos, nossa cidade está ausente nas ações regionais de impulsionamento do agronegócio, da indústria e da inovação em múltiplos campos, todos temas debatidos com maestria pelas entidades citadas e que estamos tratando como dispensáveis na ordem do dia.

Se a atuação fora de casa deixa muito a desejar, ao menos poderíamos supor que é porque internamente vem sendo feito um bom trabalho, o que geraria um descaso intencional (e quem sabe até necessário) com relação a agremiações e ações de interesse comum com os outros municípios. Mas não é o que ocorre, pois Foz apresenta diversas localidades que precisam com urgência de propostas de desenvolvimento social, como é o caso da Vila Bananal, praticamente uma área fantasma no mapa de nossos gestores. Essa postura de vistas grossas aos interesses internos e externos está nos custando prejuízos que se espraiam ao longo do tempo, podendo até superar décadas, como ocorreu na licitação pública que regeu a nova concessão do Parque Nacional do Iguaçu. Por falta de pulso e de voz ativa liderando Foz e os municípios vizinhos, tivemos de engolir um edital conduzido de forma absolutamente desinteressada nas necessidades locais, e agora teremos de conviver com 30 anos de absoluta ausência de benefícios às cidades da região.

Esbarramos aqui em Foz também em desafios para o futuro que são crônicos em nosso país, deixando de ser um “privilégio” de Foz, mas, nem assim, merecendo nosso conformismo e resignação. É o caso da ética, do compliance, do trato correto e transparente do erário resultante do suor sagrado do contribuinte. É realmente embaraçoso explicar aos nossos filhos que o homem planeja viagens a Marte e não consegue dar conta de coibir mazelas inaceitáveis de nossos gestores, discutidas por Sócrates e outros filósofos há séculos antes de Cristo. Quando ocupava a Secretaria de Transparência e Governança de Foz do Iguaçu, levei à Câmara dos Vereadores um projeto que usaria o próprio dinheiro resgatado em ações anticorrupção para combater essa praga – poderíamos nos tornar modelo para o Brasil com essa iniciativa inédita, mas ela foi recebida friamente, esquartejada em debate e arquivada por motivos que nunca foram devidamente esclarecidos.

Frustrações e temores à parte, temos felizmente formas de contribuir com a Foz que todos almejamos a partir de ações simples e que estão ao nosso alcance. Uma delas é a de apoiar a campanha pelas eleições com segundo turno em Foz do Iguaçu. Eu a lancei em primeiro de março passado e a adesão tem sido cada vez maior. Precisamos de pouco menos de quatro mil eleitores para atingir os 200 mil necessários segundo os critérios do TSE. Foz é uma cidade de imigrantes, eu próprio não sou daqui, vim de Castro, do outro lado do Estado, mas fiz questão de mudar meu título de eleitor para cá há muito tempo, pois é a forma mais efetiva de firmar meu exercício de cidadania aqui e de contribuir com a escolha democrática de nossas lideranças locais. É o senso de pertencimento na prática. As eleições com dois turnos vão beneficiar o futuro de Foz em diversos aspectos, começando pelos resultados mais legítimos dos pleitos (prefeitos que realmente detém mais de 50% dos votos válidos) e indo à mensuração de ações comunitárias mais precisas, tanto por o segundo turno permitir o melhor debate de propostas quanto por passarmos a ter uma percepção mais clara do real universo populacional de nossa cidade. Então, precisamos todos convocar vizinhos, amigos, colegas e familiares e divulgar o movimento, estimulando aqueles que moram aqui mas ainda não transferiram seu título para Foz. Também os adolescentes próximos a completar 16 anos de idade precisam ser estimulados a tirar seu título e assim engrossar as fileiras de novos eleitores. É uma corrida contra o tempo pois as próximas eleições municipais são já no ano que vem, mas não há dúvida de que a meta é plenamente atingível.

A Foz do futuro tem dois caminhos: o da apatia e o da participação popular. Sou entusiasta dessa segunda via, e ela não exige esforços hercúleos de ninguém, pelo contrário, é necessária apenas boa vontade e estar atento às diversas formas de contribuir. O futuro, seja aqui ou em qualquer outro lugar, é muito mais do que carros autônomos, inteligência artificial ou turismo espacial, ele é feito pelas pessoas e para as pessoas. E desse tema nós iguaçuenses de coração e de nascimento somos mestres, afinal recebemos bem pessoas do mundo todo, sabemos da importância do convívio, e respeitamos todas as raças, credos e origens. A Foz do futuro é a Foz de todo mundo, literalmente.

José Elias Castro Gomes é empresário, ex-Secretário de Transparência e Governança da Prefeitura de Foz do Iguaçu e idealizador da campanha pelas eleições com dois turnos em Foz do Iguaçu.

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