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Quem roubou nossa coragem?

Algumas músicas não terminam quando o último acorde acaba. Elas continuam morando nas lembranças, nas pessoas que amamos e até nos sonhos que insistimos em realizar. Ao reencontrar a Legião Urbana, Eliana Tao atravessa a noite entre saudades, encontros e surpresas — e descobre que certas histórias ainda precisam ser vividas.

13 min de leitura
Quem roubou nossa coragem?
André Frateschi e Dado Villa-Lobos no palco do Clube Curitibano

Por Eliana Tao | Crônica

Pouco mais de dois meses depois da palestra do Bernardinho onde consegui algumas palavrinhas em chinês do técnico da Seleção Brasileira Masculina de Vôlei surgiu uma nova oportunidade para retornar ao Clube Curitibano, dessa vez para uma experiência musical.

No Dia Mundial do Rock, o clube recreativo divulgou a realização de um show de “Tributo à Legião Urbana” com Dado Villa-Lobos e André Frateschi. Li a postagem com os detalhes da apresentação com os olhos marejados, tomada por recordações que passam pela minha infância, adolescência até os dias atuais com meus 45 anos logo ali. Paralelamente contatei uma pessoa próxima para saber se gostaria de ir na apresentação e no fim formamos um trio.

Meu “tio de consideração” Reinaldo Baeta se prontificou a comprar os ingressos na modalidade de convidados, contudo não pôde fazê-lo: de acordo com as regras da atual gestão o associado precisa estar no evento com seus convidados, algo que não seria possível em razão de um compromisso pessoal.

Eu não contava com esse impedimento e em momento nenhum me deixei abater ou paralisar questionando “quem roubou nossa coragem?” Imediatamente comecei uma corrida contra o tempo para encontrar algum associado que iria ao evento para me ajudar. Quase uma semana e muitas tentativas frustradas depois, Regina Celi Gaspar Dias, associada do clube que tive o prazer de conhecer e atender em alguns momentos quando era colaboradora da Sede Barão “adotou” a mim e meus acompanhantes, resolvendo a questão dos ingressos. Ufa!

Carreira solo e turnês comemorativas

 O falecimento de Renato Russo há 30 anos levou ao fim da banda. Os integrantes remanescentes seguiram na música em carreira solo, também com projetos paralelos como produtor musical de trilha sonora de filmes e ainda como escritor, onde revisitam o passado legionário. Eventualmente Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos sobem aos palcos para recordar os grandes sucessos da Legião Urbana dividindo os vocais com artistas convidados.

Para a apresentação especial no Salão Rubens Arles Bettega, também conhecido como Salão Azul, Dado Villa-Lobos e André Frateschi, que é ator, cantor e músico multi-instrumentista voltam a dividir o palco e os vocais. Os dois já estiveram juntos nas turnês comemorativas: “Legião Urbana XXX Anos” em 2015-2016, “Dois + Que País É Este” nos anos de 2018 a 2020. André Frateschi participou também da turnê “As V Estações” de 2023-2024.

Dois shows em um

André Frateschi e banda subiram ao palco com quinze minutos de atraso, iniciando o espetáculo passeando por sucessos de outros artistas: “Bete Balanço” eu cantei inteira lembrando dos meus sete aninhos. No início da apresentação não enxergava nada apesar de estar na fila do gargarejo. Tentei encontrar o melhor ângulo de visão sem sucesso:

“toc!, toc!, toc!” — cutuquei alguém na minha frente: “Moço! Você tem que me ajudar! Só estou vendo suas costas e sua camiseta branca: mais nada! Tem que ter um jeito da gente ver daqui o show juntos… A culpa não é sua: eu sou baixinha!”, justifiquei.

O jovem muito gentil se reposicionou e me perguntou se eu estava conseguindo apreciar tudo. “Sonífera Ilha”, animou os presentes enquanto “Primeiros Erros (Chove)” foi entoado por todo o público:

 — “Tem um negócio na água de Curitiba que faz eles ficarem afinadinhos assim!” — brincou Frateschi ao final da canção. A interação me fez lembrar da minha adolescência, estudando dias inteiros para o vestibular e o sucesso do Capital Inicial tocava frequentemente nas rádios quando buscava um instante de descanso para a cabeça.

“Mensagem de Amor”, “Blá, Blá, Blá… Eu Te Amo (Rádio Blá)”, “Toda Forma de Poder”, “Núcleo Base” também foram canções trazidas por André Frateschi. Enquanto relembrava a letra das músicas meus olhinhos puxados buscavam Dado Villa-Lobos no palco: “cadê o Dado? Ele não está no palco!” — me perguntava. Talvez essa preocupação tenha feito eu não lembrar de nem um pedaço da letra de “I Saw You Saying (That You Say That You Saw)”.

Somos tão jovens

A parte do show dedicada à Legião Urbana teve “Há tempos” cantado a plenos pulmões pela galera: em meio ao coro voltavam flashes de momentos ao lado do meu primo Stacy Tao (1975 — 2026) ao som de diferentes faixas de “As quatro estações”, em Miami, em 1997, recuperando com muito durex o encarte destroçado depois de emprestado não sei para quem. Deu saudade dos meus 15 anos e 22 anos dele, ambos com receio até de respirar para não desencaixar os pedaços antes de colar. Também veio na memória meu pai Tao Tsun Shing (1950 — 2019) gravando o clipe dessa música na transição do VHS para os formatos digitais. Já a letra de “Meninos e meninas” foi carinhosamente alterada: “Acho que gosto de São Paulo e gosto de São João. Gosto de Curitiba e São Sebastião e eu gosto de meninos e meninas”

André Frateschi chamou Dado Villa-Lobos ao palco em “Quase sem Querer” e o público fez coro uníssono na canção. Com a presença do eterno legionário a postura do vocalista convidado ganhou um ar mais cênico enquanto Dado tinha um estilo mais discreto, tanto nas interações com a plateia quanto nos vocais, jogando duas vezes sua palheta para os fãs.

Essa foi uma das minhas primeiras composições. Lembro do Renato (Russo) dizendo “sei lá! Faz qualquer coisa! Faz uns barulhinhos aí”: esse barulhinho é bom! — recordou Dado antes de “Ainda é Cedo”. “Teatro dos Vampiros” veio na sequência, além de “Tudo que Vai”, composição de Dado Villa-Lobos que foi gravada pela banda Capital Inicial.

Em “Quando o Sol Bater na Janela do teu Quarto” e “Eu sei”, o público voltou a acompanhar André Frateschi. A banda interpretou também “Daniel na Cova dos Leões”, para comemorar as quatro décadas do disco “Dois”.

André Frateschi em “Faroeste Caboclo”

Quem tem nove minutos para mim? Você tem? Você me dá nove minutos? Ele ali do fundo está com pressa! Poxa! São só nove minutos! É a duração dessa daqui, oh!” — interagiu André Frateschi antes de “Faroeste Caboclo”, que teve um trecho especialmente alterado e cantado por todo o público:

“Falou com Pablo que queria um parceiro e também tinha dinheiro e queria se armar

Pablo trazia o contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Curitiba, lá no Batel”.

Mais do mesmo

Os fãs demonstraram um carinho especial pelas canções “Será” e “Geração Coca-Cola”. Esperavam ainda que os artistas puxassem uma resposta para “Que país é esse?” com palavrão da mesma forma quando na voz de Dinho Ouro-Preto, o que não aconteceu, prevalecendo a letra original.

Em um determinado momento senti minha cadeira de rodas motorizada tremer no ritmo das músicas indicando que meus acompanhantes também estavam curtindo o show, enquanto eu dividia meu olhar entre os ídolos no palco e a foto do pai e meu primo juntos num registro do final da década de 80 do século XX, em Foz do Iguaçu “e não quis acreditar que tinha sido há tanto tempo atrás. Um bom exemplo de bondade e respeito, do que o verdadeiro amor é capaz” e feliz com a coincidência de que a vida de Stacy – o primeiro legionário que conheci – foi parecida na parte do “quero viver a minha vida em paz, quero um milhão de amigos, quero irmãos e irmãs”.

Tao Tsun Shing, de camisa, com o sobrinho Stacy Tao, no final dos anos 80

Pedido dos fãs

Dado Villa-Lobos cantando Tempo Perdido no Clube Curitibano

Dado Villa-Lobos voltou ao palco para encerrar o show ao som de “Pais e Filhos”, mas atendendo ao pedido de bis do público a última canção foi “Tempo Perdido”, quando Dado assumiu os vocais sozinho e todos no palco não escondiam o olhar de admiração pelo legionário. Eu, com toda minha dificuldade de fotografar e gravar em razão da espasticidade provocada paralisia cerebral fiz questão de registrar o momento, pois SEMPRE EM FRENTE sublinhado foi o trecho de uma mensagem que Stacy escreveu de próprio punho para mim no final de julho de 1997 (e na época não tinha nem ideia do quanto é difícil seguir este conselho depois que perdemos pessoas próximas).

Trio de Taos: da esquerda para direita: Stacy, com 14 anos, Jody, com 10 e Eliana, de branco, com 7 anos, em algum fim de semana em Foz do Iguaçu)

O caminho é um só

Sabendo que um grande desafio me esperava depois do show e que toda energia positiva era bem-vinda até o perfume escolhido tinha essa intenção. Enquanto muitos permaneciam na pista curtindo o show de uma banda local eu (envolta no aroma do Lady Million Lucky, perfume da Paco Rabanne) e minha dupla de acompanhantes partimos em direção ao camarim.

Chegando lá, encontramos três seguranças nada amigáveis na porta e fãs na esperança de que algum artista – especialmente o Dado – nos recebesse para fazer fotos. Nesse momento conheci uma Louise, como eu também de nome composto só que o Louise dela é o primeiro e o meu é o segundo nome: rimos da coincidência e lembramos da mais famosa de todas: a rainha do pop, Madonna, também carrega Louise em seu nome.

Encontro de Louises: Eliana Louise Tao e Louise Juliane Sandri esperando por Dado Villa-Lobos

Pouco tempo depois alguém da produção surgiu para comunicar que Dado Villa-Lobos não receberia nenhum admirador para fazer fotos, nem as duas Louises juntas. A produção ajudaria com autógrafos, mas sem encontrar com o Dado e sem nenhum registro de imagens ou de vídeos.

Assim muitos deixaram o local entristecidos, mas eu fiquei com minha fiel escudeira, enquanto meu outro acompanhante também desistiu e nos esperava em algum local externo. Tentei pedir uma foto com o eterno legionário, o que me foi negado, porém ganhei autógrafo duplo e diferente um do outro: no caderno de mensagens novo dado há alguns anos por tio Reinaldo Baeta, também no encarte de um CD da Legião Urbana, o “As quatro estações”, o mesmo que Stacy tinha.

Pedi também que a pessoa da produção mostrasse ao Dado Villa-Lobos uma carta de um fã da Legião Urbana que não podia estar ali, devido ao falecimento precoce e que em vida não teve a chance de assistir a nenhum show da banda favorita.

Algum tempo depois a pessoa retorna com os autógrafos do Dado e revela:

— Oi amorzinho! Aqui está o que você pediu: o Dado autografou o caderno e o CD para você! Eu contei para ele e o Dado leu a sua carta todinha! Por isso demorei para voltar.

Agradeci muito a ajuda do rapaz da produção. Os autógrafos que ganhei do Dado vão se juntar a uma mensagem de e-mail que recebi do Marcelo Bonfá, em dezembro de 1999.

Mesmo muito feliz pelo que já tinha conseguido, ainda assim continuava decidida em ter uma foto ao lado de Dado Villa-Lobos, sem me importar com o fato de que já passava de uma hora da madrugada de sábado, nem que tinha trabalhado integralmente no dia anterior.

Estava atenta a todo entra e sai do camarim e conversava em chinês com minha acompanhante para evitar ser compreendida e impedida pelos seguranças. Resolvi pedir a foto para outra pessoa da produção e fui atrás de um rapaz que saiu com uma long neck vazia para sair das vistas dos seguranças.

Como ele não ouviu meu chamado o jeito foi “toc!, toc!, toc!” cutucar ele. Perguntei e o homem confirmou ser da produção da banda. Na sequência pedi ajuda para a foto com Dado Villa-Lobos explicando que é o tipo de experiência difícil de ser vivida por uma pessoa com deficiência física pelo desafio da mobilidade e que estava contando com o apoio de dois acompanhantes. Soma-se a isso o fato de eu ser fã da Legião Urbana desde criança e estar também vivendo o momento por meu pai e meu primo já falecidos: toda doçura da alegria ganha um gostinho de amargo de tristeza por eles não terem tido a mesma oportunidade em vida:

— Entendi! Você está esperando faz tempo, né? Tem ideia de que horas são?

— Sim, tenho! E se eu te contar que eu trabalhei o dia inteiro hoje?

— E não está cansada?

— Estou, mas o amor pela banda que eu escuto desde a infância me dá forças para continuar aqui, além das memórias dos meus familiares que já se foram.

— Entendi! Eu vou te ajudar! Vem comigo!

Antes de entrar para o camarim o rapaz me pediu para aguardar. Instantes depois retorna o rapaz que me ajudou com os autógrafos me dizendo que era provável que conseguiria a foto, pois Dado Villa-Lobos estava prestes a sair para ir embora. E sim! “fiquei esperando Dado Villa-Lobos passar”:

— Dado! — chamei assim que o avistei abrindo a porta do camarim.

(Dado procurava a direção do chamado)

— Você leu a minha carta! Eu estou aqui! — continuei acenando e estalando os dedos para ser vista.

(A produção levou Dado até mim) — Aqui está a moça da carta: está te esperando para uma foto faz tempo.

Dado Villa-Lobos se aproximou para as fotos que foram feitas pela minha fiel escudeira.

Dado Villa-Lobos e Eliana Tao

Dado aproveitou o momento para saber um pouco mais sobre a carta que leu:

— A carta é de um parente seu?

— Sim! De um primo que já faleceu.

— Quando foi (o falecimento)?

— Em janeiro deste ano (2026).

— O que aconteceu?

(Contei para Dado porque Stacy “acabou indo embora cedo demais”).

— Quantos anos ele tinha?

— 50 anos: era fã da Legião desde os 14 anos.

— Poxa vida!

— Obrigada por ter lido (a carta)! Onde ele estiver deve estar contente!

— Imagina! De nada!

Dado Villa-Lobos foi embora com um beijo com aroma de cigarro em mim e na minha acompanhante, detalhe que imediatamente lembrou meu pai que também era fumante.

Assim retornei para casa com a certeza de que como cantava Renato Russo “quando o sol bater na janela do teu quarto lembra e vê” que conseguiu tudo o que queria na noite anterior, pois “quem acredita sempre alcança!”.

Eliana Tao é jornalista com raízes em Foz do Iguaçu e nas Três Fronteiras. Atualmente reside em Curitiba.

Fotos e vídeo: Eliana Tao

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