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Bolsonaro acusa Tríplice Fronteira de abrigar terroristas

De forma leviana, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que as Três Fronteiras (Argentina, Brasil e Paraguai) abrigam terroristas. A declaração foi dada nesta terça-feira, 20, na saída do Palácio da Alvorada. Acusações contra esta região ocorrem há décadas. Novidade é o ataque partir de um presidente do Brasil.

Vamos ao contexto. Alinhada aos EUA, a Argentina declarou o Hezbollah como organização terrorista em julho. O Paraguai fez o mesmo na última segunda-feira, 19. Questionado pela imprensa se pretende seguir os vizinhos sul-americanos, o presidente respondeu da seguinte forma:

“Posso, sim. Pretendo fazer isso aí. E são terroristas. […] Temos informes que têm pessoas deles por aqui também, tríplice fronteira, grupo do crime organizado no Brasil. Eles são unidos. Podem não ser muito organizados, mas são unidos”. 

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Tal afirmação sugere uma tradução simples. Para Bolsonaro, o Hezbollah é uma organização terrorista. Segundo o presidente, existem “informes” de pessoas integrantes do Hezbollah morando na região que tem como principais cidades Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Puerto Iguazú.

O Hezbollah é um partido político, com assentos no Parlamento do Líbano, participação no governo do país árabe, mas considerado por países alinhados aos EUA como uma organização terrorista por conta das ações da sua ala militar. A comunidade árabe da fronteira é acusada de abrigar, entre seus integrantes, financiadores de atos terroristas. 

Com esse ataque, Jair Bolsonaro ignora a própria diplomacia do governo brasileiro, que historicamente sustenta nunca ter encontrado provas ligando pessoas da comunidade árabe a atos terroristas. Pelo contrário, o Ministério das Relações Exteriores destacou, em 2015, que “elas estão, aparentemente, muito bem integradas à sociedade brasileira”.

É preciso registrar um fato ainda mais relevante. Nada menos do que a Organização das Nações Unidas não classifica em suas resoluções o Hezbollah como grupo terrorista. O Brasil costuma seguir as resoluções da ONU nesse tema. Ao menos até a chegada de Jair Messias Bolsonaro ao governo. 

Diante da grave acusação do presidente do Brasil contra as Três Fronteiras, seria sensato tornar públicos tais “informes” para, no mínimo, sustentar a afirmação. E mais: tais pessoas consideradas “terroristas” pelo presidente estariam ligadas a quais grupos de crime organizados? 

Ao longo das últimas duas décadas, autoridades de Foz do Iguaçu levantaram enfaticamente a voz para defender a região de graves acusações sem provas. A acusação de Bolsonaro merece uma resposta à altura da sociedade, a começar dos agentes políticos que representam a cidade. Do contrário, é aguardar os danos e prejuízos provocados pela verborragia presidencial.

Alexandre Palmar é jornalista em Foz do Iguaçu. 

* Este artigo não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

Na imagem, Ponte da Amizade (Brasil/Paraguai) - Foto: Marcos Labanca

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