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De volta ao Salão Azul

Leia a crônica de Eliana Tao, jornalista com raízes em Foz do Iguaçu e na região das Três Fronteiras, sobre a palestra de Bernardinho.

10 min de leitura
De volta ao Salão Azul
Eu com Bernardinho - créditos arquivo pessoal

Por Eliana Louise TaoOPINIÃO

Após a noite de conto de fadas rock proporcionada pela produção da Banda Biquini, quando tive Bruno Gouveia como meu “gênio da lâmpada” e estive no aconchego do seu abraço praticamente o tempo todo no camarim, tive que voltar para a vida real, infelizmente.

A vida seguiu seu curso tanto no pessoal quanto no profissional, sem grandes acontecimentos, porém o capítulo no Clube Curitibano teve fim: gratidão eterna pela oportunidade, pelos amigos deixados e pelo aprendizado, mesmo que alguns tenham sido sofridos e dolorosos.

Todavia retornaria ao clube recreativo pouco mais de um ano depois. Por meio das redes sociais soube que o local realizaria uma palestra de Bernardo Rocha de Rezende, mais conhecido como Bernardinho, dono de uma trajetória vitoriosa tanto como jogador, mas principalmente como treinador da Seleção Brasileira de Vôlei Feminino e Masculino.

Recorri ao tio Reinaldo Baeta – sócio de longa data do clube – para a aquisição do ingresso. Contudo, por estar em um novo momento profissional e isso demandar boa parte do meu dia estava hesitante se iria ou não, pois tinha pouco tempo entre sair do trabalho e chegar ao local da palestra. Por fim decidi ir ao evento.

Enquanto que ano passado por pouco quase não fui ao show da Banda Biquini (que não carrega mais Cavadão no nome) apesar de ter ganho um par de ingressos da produção, pois nenhum dos meus colegas de trabalho estava feliz com minha conquista: a supervisora estava murmurante se lamentando que não foi ao show do Michel Teló, apesar de seu cargo, ao passo que eu estava indo ao show com poucos meses de contratação. A psicóloga também me ironizava dizendo que eu tinha me esforçado em vão, pois se tratava de uma banda cover, além de estar sob olhares de reprovação dos demais pertencentes ao setor. Felizmente em 2026 tive mais sorte, pois muitos dos meus colegas de trabalho, bem como gestores celebraram a oportunidade de eu estar perto e aprender com um dos maiores nomes do esporte brasileiro e mundial.

Bernardinho palestra Clube II – créditos arquivo pessoal

NOVA AVENTURA – Assim voltei ao Salão Rubens Arles Bettega, carinhosamente chamado de Salão Azul pelos frequentadores do Clube Curitibano. A palestra “A cultura da excelência” foi um convite de Bernardinho para revisitar sua trajetória, incluindo as mudanças de rota – as bifurcações – onde dividiu com o público seus sentimentos mais íntimos, permitindo aos presentes conhecer suas outras versões além daquela consolidada no esporte.

O segundo de cinco irmãos teve seu contato com o vôlei ainda na infância: “Eu brigava com meu irmão, ele era muito talentoso. Mas um talento proporcional à preguiça. E eu não tinha talento nenhum, mas tinha uma vontade louca de jogar. E toda vez que eu brigava com meu irmão no treinamento o meu treinador me mandava embora: Bernardinho, banho!”, recordou. Porém, a aparente preferência do treinador por seu irmão tinha um motivo: “ele não queria nada. Se eu mandasse ele embora, ele não ia voltar e eu queria que ele jogasse. Você queria tanto que eu te mandava embora, você voltava. Se você não tivesse resistido a minha pressão, você não teria chegado a lugar nenhum!”, explicou a Bernardinho muitos anos depois.

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Bernardinho se tornou atleta por persistência e resiliência, não por talento. Por essa razão cursou economia na PUC-Rio e estagiou na área, mas na sua primeira bifurcação escolheu ir para as Olimpíadas de Los Angeles em 1984 onde o Brasil tinha chances de conquistar uma medalha e fazer parte do que futuramente seria conhecido como Geração de Prata: “todos os meus ex-companheiros de banco estão milionários ou multimilionários ou bilionários: eu continuo com a meta de patrocínio desesperada (para sua ONG Instituto Compartilhar que tem a missão de desenvolver jovens de comunidades carentes por meio do esporte e está sediada em Curitiba)”, compara, arrancando risos da plateia.

Bernardinho palestra Clube – crédito arquivo pessoal

A essa altura Bernardinho tinha se tornado empresário e palestrante. Quando em 1989 recebe um convite para ser técnico de um pequeno time de vôlei na Itália. Dividido entre permanecer no Brasil ou viajar rumo ao novo desafio tem uma conversa com seus pais visando argumentos para a decisão mais acertada: “Você é menino de interior! Tá maluco? Você nem fala italiano! Não é treinador. Isso é uma loucura! Esse menino vai morrer de fome!”, disse sua mãe.

Interrompe a leitura de seu pai dizendo que adoraria tentar viver do esporte: “Então vai e faz bem feito! Mas só volta quando der certo! Aí deu medo, né? E se não der certo, posso voltar não, né?”, relembra. Enfrentou o desafio de tirar o time da última colocação do campeonato italiano: “Só volta quando der certo. Você fez dar certo ou voltou um pouco antes?”, indaga.

Sobre suas conquistas como técnico da Seleção Brasileira Feminina e depois a Masculina de Vôlei: “não tem nenhuma relação com a minha presença. É o estabelecimento de um processo, de um sistema. Um ambiente de excelência, precisa antes de mais nada, de confiança. Também requer um nível de cobrança alto. Aqueles melhores colaboradores teus você cobra ou não cobra? Quem é que não se incomoda por ser cobrado? Quem não quis matar um treinador? Um gerente? Um diretor? A cobrança nada mais é que o reconhecimento da capacidade daquela pessoa”, explica. “Todos têm que estar alinhados com nossos valores: a recepcionista, o porteiro… Se ele não estiver alinhado, não tiver um bom serviço, não vai dar certo. Ele tem que estar alinhado com a nossa excelência, de servir, de prover a melhor experiência”, completa. Qual o primeiro elemento para escolher alguém para o seu time? Que você não ensina as pessoas: vontade. Eu posso ensinar uma planilha, eu posso ensinar uma técnica, eu posso ensinar, mas a vontade, você não ensina”, conclui.

Bernardinho deixou uma reflexão para os papais e mamães presentes na plateia: nos lamentamos por uma geração menos resiliente. Rotulamos as gerações: geração Nutella, geração mimimi. Na nossa época não existia Nutella no mercado, mas já tinha gente vagabunda. E se existe uma geração menos resiliente, quem é a culpa? Nossa! Porque não dissemos os NÃO necessários. E a vida não vai ser sempre justa. Os NÃO estarão aí. (Os jovens da nova geração) Eles não são melhores. Eles não são piores. Mas eles são diferentes: cabe a nós encontrar uma forma de conexão com eles”, finaliza.

ESTAR PREPARADO – Um dos maiores nomes do esporte compartilhou com o público presente uma das suas maiores obsessões, algo que já desconfiávamos observando seu estilo de jogo: “preparação, a minha missão é preparar as pessoas. Se você passar uma temporada comigo e você não evoluir, eu falhei na minha missão, e essa é a minha obsessão. Não sei fazer muita coisa a não ser desafiar as pessoas, tirar elas da zona de conforto, porque o milagre não acontece na zona de conforto, você quer melhorar o seu fundamento, é desconfortável”, explica.

Essa lição aprendi e apliquei depressa. Em razão do grande número de pessoas presentes as perguntas para Bernardinho ao final da palestra foram bastante limitadas: apenas três para cada lado do salão lotado desde o início. De iphone e caderninho cor-de-rosa na mão me juntei aos que tinham uma pergunta ao treinador:

Você tem uma pergunta? – me questiona uma mulher vestindo um longo casaco verde-militar, aproximando-se lentamente por eu estar na cadeira de rodas motorizada, bem como por causa da aglomeração de pessoas.

– Não! Quero outra coisa: uma foto e um autógrafo dele. Você me ajuda por favor?

– Claro que sim! Venha mais para cá! Fique aqui!

Ela era a segunda da fila e eu meio grudada nela. A única coisa que passava na minha cabeça nesse momento era uma conversa por aplicativo com meu primo Sean Tao, que mora na Geórgia, nos Estados Unidos, me contando que na adolescência viu Bernardinho jogando e realizando o saque “Jornada nas Estrelas”.

O caderninho cor-de-rosa chegando ao Bernardinho – créditos arquivo pessoal

– Olá Bernardinho! Não quero nada para mim: quero pedir para essa moça que está aqui. Ela gostaria de uma foto e um autógrafo. Você poderia descer para fazer uma foto com ela, por favor?

– Claro! Uma foto com ela? Eu vi ela! Estava aqui na frente!

– Você é chinesa?

– Sou sim!

– Reconheci pela roupa! Foto agora! Já!

Bernardinho desceu a escada na lateral direta do palco e carinhosamente me abraçou para imortalizar o momento:

– Vamos para a foto!

– Você me ajuda? Fiz algumas fotos, mas minhas selfies não ficam boas.

– Eu vi você tirando foto. Claro que eu te ajudo!

– Conversando ontem com meu primo descobri que ele assistiu pessoalmente uma partida sua como jogador, nos anos 80.

– Ah legal! Mas então ele tem mais idade do que você! Vamos tentar esse botãozinho aqui… não! Vamos ver assim…

– Sim! Bastante.

– Manda um abraço para ele!

– Mando sim! Obrigada!

De volta ao palco Bernardinho faz uma revelação: “vocês não sabem, mas eu sou fluente em chinês! Nǐ hǎo é ‘como vai’ e Xièxiè é ‘obrigado’”, explicava em tom de brincadeira, enquanto eu dizia ‘verdade! Tá certo!’ na plateia fazendo sinal de positivo. “Viu? Ela confirmou! Eu falo chinês, vocês que não sabiam!”, continuou. O improviso arrancou gargalhadas do público. Intercalava Nǐ hǎo e Xièxiè sorrindo para mim.

A mulher do casaco longo verde-militar ajudou a fazer as fotos com Bernardino – momento também captado pelas lentes do Clube Curitibano – também foi minha levantadora levando meu caderninho cor-de-rosa para que eu ganhasse o autógrafo:

Autógrafo do Bernardinho – crédito arquivo pessoal

– Meu nome é Eliana! – digo duas vezes da plateia.

– Tá bom, querida! – responde enquanto escreve e me manda beijos estalados do palco.

– Xièxiè! Muito obrigada! – eu dizia na plateia também mandando beijos estalados.

– De nada, querida! (Passa pra ela! Cuidado para ela não forçar o braço!) Olha! Só pra você! – orientava Bernardinho ao me devolver o caderninho.

Nesse momento acontecia uma chuva de aplausos. A alegria dos presentes era tamanha como se eu fosse responsável pelo set point de uma partida disputada.

Lentamente me afasto do palco para dar espaço para outras pessoas fazerem perguntas. Tinha me tornado uma espécie de amuleto, um talismã: me parabenizavam, recebia carinho em todas as partes do corpo possíveis: ombro, costas, braço, mão, bochecha, perna… e mesmo na saída do clube recreativo ainda era cumprimentada. Era chegada a hora de ir para casa e bancar a Bela Adormecida, pois chegava ao fim mais uma noite no Salão Azul, palco de momentos especiais e inesquecíveis.


Eliana Tao é jornalista com raízes em Foz do Iguaçu e nas Três Fronteiras. Atualmente reside em Curitiba.

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