Aida Franco de Lima – OPINIÃO
O mundo assistiu abismado à catástrofe que atingiu o Nepal. O lugar sagrado, para onde tantas pessoas vão para orar e ressignificar suas crenças, ficou sob a lama. Do alto das montanhas, o branco do gelo se transformou em uma massa mortífera arrasando o solo. O dia 26 de agosto entrou para o calendário das grandes tragédias climáticas.
De início, falou-se em um possível terremoto e até em tsunami. Depois que a lama baixou, vieram outras informações. Um bloco gigantesco de gelo e rocha do Himalaia desabou. Ao escorregar pelas montanhas, levou junto toneladas de material da encosta, formando uma massa de rochas, sedimentos, gelo e água que foi despejada no Rio Lhende Khola, produzindo uma enxurrada extremamente violenta de lama e detritos.
O nível do rio chegou a subir cerca de nove metros em apenas 30 minutos. Imagine toda essa massa de sólidos e líquidos deslocando-se a uma velocidade de 180 quilômetros por hora, por um trecho de aproximadamente 20 quilômetros! Foi isso que aconteceu no Nepal no último dia 26.
Quando a mídia mostra as geleiras derretendo, os blocos de gelo sumindo e um velho urso polar desolado, tudo isso parece muito distante da realidade do cidadão comum, que muitas vezes nem acredita que o mundo está ficando mais quente — e que isso é muito grave.
Você se lembra de quando as geladeiras acumulavam aquelas placas enormes de gelo, das quais caíam blocos inteiros quando começavam a descongelar? Quem nasceu na década de 1970 deve ter, em algum momento da vida, comido aquele gelo fininho que se formava no congelador — e que depois fomos saber que não era lá muito saudável. Estamos em 2026, e — tal qual o gelo do congelador da velha geladeira de casa — algumas das maiores geleiras do mundo estão dando sinais de que algo está profundamente errado, e isso não é nada saudável também! Agora estamos aprendendo que o gelo não apenas derrete. Ele pode romper de uma vez.
No Nepal, as pessoas foram pegas de surpresa. Aparentemente, não havia um grande sinal de alarme anunciando que, naquele dia, uma montanha poderia desabar. Talvez este seja justamente o problema: os sinais não começaram no dia 26 de agosto. Eles vêm sendo dados há décadas. Geleiras recuam, temperaturas sobem, extremos se repetem e a ciência registra cada mudança. Nós vemos, comentamos, assustamo-nos e, pouco depois, seguimos a vida como se nada tivesse acontecido.
Talvez seja aí que o degelo se choque com uma espécie de demência ambiental. Demência envolve, entre outras perdas, a dificuldade de guardar referências, reconhecer informações e usá-las para orientar as próprias ações. A Terra está dando os sinais, e nós parecemos esquecer os avisos que ela repete. As geladeiras evoluíram, mas o Homo sapiens ainda não.
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