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Coentro, uva-passa e calor: nem tudo é questão de gosto

Durante fase de calor intenso na Europa, o número de mortes aumenta em cerca de 30 mil casos, em comparação com os mesmos períodos de anos anteriores.

4 min de leitura
Coentro, uva-passa e calor: nem tudo é questão de gosto
Acostumados com baixas temperaturas, europeus sentem impacto ainda mais intenso e buscam refrescar a qualquer custo. Foto: Pixabay

Aida Franco de Lima – OPINIÃO

Preferir o calor ou o frio, coentro ou não, uva-passas no arroz… pode gerar discussões acaloradas. Mas, preferências à parte, o fato é que o calor infernal que está tomando conta da Europa não agrada a ninguém. E oferece risco de morte a uma parte da população que, indiretamente, tem a saúde comprometida com as altas temperaturas.

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Um número colocou em alerta as autoridades europeias. Dados indicam que os óbitos do período, se comparados com outros, tiveram aumento de mais de 30 mil pessoas, justamente na época em que as ondas de calor foram mais evidenciadas.

Os números ainda oscilam e não querem dizer que essas pessoas perderam a vida somente em consequência do calor. Pessoas já com o quadro de saúde comprometido e que, com o intenso calor, tiveram os problemas agravados e não resistiram. O calor excessivo piora a saúde de quem tem problema cardíaco, respiratório ou outras doenças, assim como pode ser fatal para idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade.

No imaginário brasileiro, Europa rima com neve. E, na realidade, sempre foi assim. As casas sempre foram planejadas para reter o calor, equipadas com aquecedores a gás e poucas com ar-condicionado. Porque a condição lá fora sempre jogou as temperaturas para os níveis mais baixos do termômetro.

Contudo, agora, o que há é uma corrida em busca de ventiladores. Tanto quanto as temperaturas, as vendas estão nas alturas, e ocorrem até brigas em lojas por conta dos ventiladores e ares-condicionados. Os índices indicam aumento de 200% na comercialização desses aparelhos em toda a Europa, e grandes varejistas veem as vendas baterem 30% a mais, com estoques esgotados.

Se os lojistas estão faturando, a saúde pública pede socorro. Emergência climática não é “só” derretimento de geleira ou não concordância com alertas de cientistas. Não é questão de aceitar ou não. É questão de estar acontecendo — e, como sempre acontece, quem tem menos poder aquisitivo sofre mais as consequências. Ainda que estejamos falando de países considerados ricos, uma parcela da população vai pagar a maior parte dessa conta.

Lembra-se do show da turnê de Taylor Swift no Rio de Janeiro? Era novembro de 2023, houve uma onda de calor extremo, com temperaturas acima de 40°C e sensação térmica superior a 60°C. Ana Clara Benevides, de 23 anos, estava na plateia, não suportou a exaustão térmica e faleceu. A apresentação seguinte foi adiada, e veio à tona o debate sobre a segurança em grandes eventos. Entre outras mudanças, a obrigatoriedade de assegurar a hidratação ao público entrou em cena.

Passou da hora de transformar preocupação em cobrança. Cada cidadão pode começar olhando para a própria cidade e perguntando: quantas árvores foram plantadas e quantas foram derrubadas nos últimos anos? Há sombra nos pontos de ônibus, escolas, creches e unidades de saúde? Os ônibus são climatizados? Existem bebedouros públicos, áreas verdes e locais climatizados para trabalhadores e pessoas vulneráveis? O município possui um plano para enfrentar ondas de calor? Como estão os rios que cortam a cidade e as zonas rurais? Cobre o prefeito, os vereadores, vá às redes sociais deles e questione.

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Envie requerimentos pela ouvidoria, manifeste-se também em suas redes sociais, marque as autoridades, participe das sessões da Câmara e exija respostas concretas, com prazos e orçamento. Mudanças climáticas são globais, mas muitas das medidas capazes de proteger vidas começam na rua onde moramos.

A pergunta já não é se acreditamos ou não em emergência climática. A pergunta é: o que estamos fazendo e o que estamos exigindo de quem governa antes que a próxima estatística tenha o nosso endereço? Diferentemente das comidas, que podemos escolher outro prato, só temos este planeta para morar. Até porque, se um dia colonizarem outros, aí que nossa “terrinha” vai ser ainda mais desprezada, sendo que deveríamos cuidar dela como algo precioso e único.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

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    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente.

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