Aida Franco de Lima – OPINIÃO
Saímos do verão mas o verão não vai sair de nossa cidades mega impactadas com as mudanças climáticas extremas que começam nos nossos quintais e avançam pelos espaços públicos. As árvores, onde estão?
Você provavelmente já leu — ou ouviu — algo como: “Árvore também morre, tem que cortar mesmo.” A frase costuma vir acompanhada de impaciência, como se qualquer questionamento fosse exagero. Mas esse tipo de simplificação ignora algo básico: na natureza, até um tronco aparentemente morto cumpre função.
Talvez por isso — ou apesar disso — nossas cidades estejam enchendo-se de tocos. Basta olhar a própria quadra. Eles estão ali: servindo de apoio improvisado para lixo, de banco precário ou apenas ocupando espaço onde outra árvore poderia crescer. São vestígios de decisões que raramente consideram o conjunto da vida urbana.
A ausência de planejamento e de sensibilidade na gestão ambiental é evidente. E, não raro, recai sobre o cidadão comum a tentativa de preservar o que resta do verde — justamente diante de estruturas públicas que deveriam protegê-lo. Em muitos casos, a lógica parece invertida: prioriza-se o valor econômico imediato, em detrimento dos benefícios ambientais que garantem sombra, conforto térmico e qualidade de vida.
Em Foz do Iguaçu, por exemplo, o Plano de Arborização Urbana permanece, há cerca de uma década, sem implementação efetiva. Se fosse uma árvore — um pé de jabuticaba, talvez — já teria frutificado inúmeras vezes. Nesse período, diferentes gestões se sucederam, mas o plano seguiu engavetado. O resultado é previsível: ausência de manejo adequado e supressões que, muitas vezes, parecem mais regra do que exceção.
Não se trata de negar a necessidade de intervenções. Árvores podem adoecer, oferecer risco ou exigir manejo técnico. O problema é quando o corte se torna a solução padrão. Fala-se pouco em tratamento, recuperação ou acompanhamento. Menos ainda em observar ciclos naturais — floração, frutificação — ou em considerar a fauna que depende dessas estruturas. Ninhos, abrigos e rotas de deslocamento simplesmente deixam de existir de um dia para o outro.
A motosserra chega amparada por decisões administrativas, e o impacto raramente é discutido de forma transparente. Os órgãos responsáveis, por sua vez, muitas vezes operam sob limitações políticas e institucionais que dificultam uma autocrítica efetiva. O resultado é um silêncio que naturaliza perdas sucessivas.
Como se os animais urbanos, subitamente desabrigados, pudessem simplesmente mudar de galho.
- Enquanto isso, as cidades se tornam mais quentes, menos acolhedoras e progressivamente mais pobres em biodiversidade. Não por falta de conhecimento técnico, e sim por ausência de prioridade.
Toda árvore tem morador. E reconhecer isso é o primeiro passo para tratar a arborização urbana não como obstáculo, mas como infraestrutura essencial à vida nas cidades. Muitas crianças e adolescentes nem conhecem som de grilo ou viram a magia de um vagalume. Outras não conhecem borboletas ou pardais. Só aqueles dos radares.
Há um tempo, da janela do apartamento, observei um morador cortar três pés de limão-rosa. Provavelmente porque as folhas o incomodavam. E então, a rota de um bando de aves chamada alma-de-gato e de outros que não sei nominar acabou abruptamente! Nunca mais aquele “miado”, nunca mais aquela alegria festeira de voltar para casa. A casa caiu, literalmente.
Fiquei pensando se eram as folhas ou o barulho que motivaram o corte. Ficou ainda mais nítido o ruído da rua, dos automóveis e das batidas constantes que acontecem no cruzamento sem sinal. Lá, certamente, valorizariam um pardal. Ou não.
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