Exumações imediatas para liberar jazigos diante da ocupação praticamente total (99,99%) das vagas nos cemitérios de Foz do Iguaçu. Ao autorizar essa medida emergencial à empresa que gere o serviço, há três meses, a Justiça avaliou que a situação beirava o colapso e identificou “falha sistêmica” do poder público municipal.
E deu números. A crise se arrasta pelos últimos seis anos, ou seja, situa-se entre as administrações de Chico Brasileiro (atualmente no PSDB) e Joaquim Silva e Luna (PL). Relatórios transpostos ao processo contabilizam que a cidade registra 140 óbitos por mês, mas oferecia em junho apenas 23 vagas regulares e 20 gavetas emergenciais.
A magistratura determinou ação imediata e cobrou da prefeitura plano estrutural, em nova decisão ocorrida nesta semana, além de convocar audiência pública para tratar do tema. A projeção, agora, é de 52 novas vagas no Cemitério Jardim São Paulo e ampliação das gavetas no Cemitério Três Lagoas, com possibilidade de criação de outros 88 espaços.
Os serviços cemiteriais prestados pelo município ou por ele entregues a concessionárias devem ser ágeis, eficazes e acessíveis, já que encontraram as pessoas em seus momentos de maior fragilidade e dor, envolvem as consequências da perda, luto e procedimentos de despedida. Fazer uma família aguardar dias para enterrar o corpo de um ente querido é grave violência simbólica.
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A escassez de vagas para enterros não é falta operacional ou falha momentânea. Constitui problema de gestão, ou melhor, de gestões do município, as quais se alternam apegadas a demandas do cotidiano, o chamado “feijão com arroz” administrativo, restando quase nada de atenção para pensar, projetar, planejar, antecipar-se aos problemas e adotar soluções definitivas. Perpetua-se, não é de hoje, o paliativo.
Escritor português publicou livro sobre as intermitências da morte, no qual supõe ausência de falecimento de uma sociedade inteira. No texto — filosófico, não sobre maus gerentes —, a mortalidade é necessária para o indivíduo viver; do contrário, seria penosa a vida. A crise dos cemitérios aproxima gestão de Foz do Iguaçu da ficção, em que o trato ineficiente da coisa pública quase impõe insubordinação às leis naturais, fazendo proibir-se morrer.

