A energia elétrica gerada pela Itaipu Binacional representa uma vantagem competitiva de que o Paraguai dispõe para fomentar o desenvolvimento econômico e social, do campo às indústrias e cidades. O país é sócio do Brasil no empreendimento que simboliza uma experiência exitosa de integração e cooperação entre povos vizinhos, a qual se estende por mais de meio século.
É certo que há divergências. Parceria é a incessante busca de entendimento para finalidades comuns, não a ausência de interesses distintos. O que não se perdeu em mais de 50 anos de relações binacionais em torno desse projeto audacioso para as duas nações é a capacidade de diálogo, negociação e costuras diplomáticas e políticas.
No momento atual, o próprio governo do Brasil aposta em usar os dividendos resultantes do pagamento da dívida da construção da usina para baixar o custo da energia a quem produz e nos lares. Em suas contas, tal medida torna as empresas e a economia mais competitivas, além de promover inclusão. A governança do Paraguai discorda.
Todavia, o solavanco no tabuleiro ocorre devido à geopolítica mundial e às suas investidas na fronteira. O objetivo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de refundar a Doutrina Monroe, que postula “A América para os americanos”, encontra uma lista de recursos e insumos estratégicos na região e, de troco, terreno ideológico fértil.
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No mais recente movimento desse xadrez, o governo dos Estados Unidos almeja utilizar a energia produzida pela Itaipu Binacional para alimentar a infraestrutura de inteligência artificial a ser desenvolvida por empresas do país do Norte no Paraguai. Os chamados data centers são estruturas que exigem enormes volumes de eletricidade, nesse caso a de Itaipu.
O envolvimento do vice-secretário do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, como intermediador do acordo, com direito a visita oficial ao governo paraguaio, dá a dimensão das pretensões. Hoje, o Paraguai vende ao Brasil a quantidade de energia elétrica que não consome, dentro de sua cota societária de 50% da produção.
A destinação do excedente, prevista no tratado que viabilizou a usina, é, pois, tema caro às negociações entre os sócios binacionais. Ao enviado de Trump, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, afirmou que o país “precisa utilizar 100% de sua energia”. A aproximação com os Estados Unidos acrescenta uma nova camada nas relações entre vizinhos, em que a disputa por energia pontilha as Três Fronteiras no mapa da geopolítica mundial.

