Corrupção, a saúva que pode acabar com o Paraguai

Se houver punição, a corrupção pode não acabar: mas fica em níveis civilizados. Foto: Pixabay

O naturalista francês Auguste de Saint Hilaire, 200 anos atrás, percorreu o Brasil durante longos seis anos. Da experiência, constatou e alertou: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.

O Brasil controlou a saúva, mas ainda há outros males que precisam ser extintos e controlados. Entre eles, a corrupção.

WHATSAPP – Assine a nossa linha de transmissão.

TELEGRAM – Entre em nosso grupo.

E isso vale ainda mais para o Paraguai, onde a corrupção é institucionalizada, isto é, permeia todas as atividades, públicas e privadas.

O paraguaio, coitado, paga duas vezes. Embora os impostos no país não sejam elevados, o paraguaio que cumpre com suas obrigações tem que pagá-los ao adquirir alimentos, máquinas, bebidas e tudo o mais. E tem o imposto de renda. Brando, mas está lá pra ser pago. Ao menos pelos honestos.

Aí, entra a corrupção. É o guarda de trânsito, é o funcionário público que exige propina pra facilitar um trâmite qualquer, é algum serviço gratuito ao qual se tem acesso rápido mediante coima. E o gratuito passa a ter preço. Paga o cidadão cumpridor dos deveres, paga este mesmo cidadão novamente se quiser ter o que não deveria existir: algum privilégio.

O H2FOZ citou casos de corrupção no Paraguai que são de estarrecer. Foi o caso da família de um espanhol, desalojada de casa por uma máfia que envolve interesses particulares com apoio de gente influente em setores vitais para a administração do país, da Justiça ao Executivo.

Entre as vítimas dessa corrupção institucionalizada estão também brasileiros. Milhares deles, aqueles que sonham com um curso superior – principalmente de Medicina -, tão caro no Brasil, se for privado, e tão distante, se precisar concorrer num vestibular com milhares de estudantes de classe média, mais preparados em cursos pagos e, depois, em cursos pré-vestibulares também nada baratos.

Eles veem então a opção de estudar no Paraguai, em faculdades privadas, onde não há vestibular e o preço é bem mais acessível que nas brasileiras.

A realidade, no entanto, não é tão rósea. Eles aprendem que não podem circular com seus carros sem o risco de topar com pedidos de coima de agentes que deveriam zelar pelo trânsito e pelas leis, não para auferir vantagens.

Quando vão tirar documentos – e nós relatamos aqui -, é taxa extra para cada um deles. De que adianta, teoricamente, o custo do documento ser barato, se para os estudantes há o “extra” da propina? O barato, para eles, acaba sendo caro.

As próprias instituições de ensino – temos várias denúncias arquivadas, à espera de irmos a campo – muitas vezes prometem o que nunca vão cumprir. O campus, antes bem situado, apropriado, já não está mais para eles: agora, é um local improvisado, sem condições de estudo e pesquisa.

E as leis mudam: de repente, dobra o número de horas/aula necessário para conseguir o visto permanente, por exemplo. Neste caso, os beneficiados são os que estão em cursos de 5 ou 6 anos de duração. Os demais vão penar.

Mas esta saúva do Paraguai, a corrupção, vai se voltar contra todo o povo, no momento em que brasileiros desistirem de estudar no país e as faculdades fecharem, os donos de apartamentos alugados ficarem na mão e a economia de Ciudad del Este ou de Pedro Juan Caballero descambar.

Vale também para o momento em que, de tão institucionalizada, a corrupção desanime os homens de negócios, do Brasil ou de qualquer outro país, que não vão mais sequer pensar em instalar uma filial no Paraguai.

É uma possibilidade remota? Claro, as vantagens ainda superam a desgraça da “coima”. Mas até quando? Em que momento as autoridades e a sociedade civil vão encarar de frente o problema e formar uma coalisão que invista contra os corruptos de todas as categorias, do taxista que leva o turista até o político que favorece amigos?

Até quando a Justiça do Paraguai vai aguentar tantas críticas contra ela mesma, que deveria zelar pela prática correta das leis? Os magistrados não vão se unir num movimento para afastar aqueles que são suspeitos de práticas criminosas?

Quando as entidades de classe, trabalhadores e empresários, vão discutir a sério o problema, que sabem ser uma prática tão comum que ninguém fica escandalizado?

Todos sabem que um vício da sociedade vai favorecer não apenas o funcionário corrupto, que leva uns trocos pra “facilitar” qualquer coisa, mas o criminoso organizado, o empresário que ganha milhões e paga pra ser intocável, o bandido que mata, trafica, destrói famílias graças aos “acertos” que tem aqui e ali.

Não se espere uma união dos políticos contra a corrupção. Muitos deles já caíram neste vício. No caso desses, é preciso trocá-los. E isso acontece nas eleições. É preciso aprender a escolher e a votar naqueles que, por tudo o que se sabe e já saiu na imprensa, estão “limpos”.

É o futuro do Paraguai que está em jogo, por causa desta praga chamada “coima”, que em português quer dizer propina. Porque propina, em espanhol, não tem o vício do crime: ela significa gorjeta, que dá quem quer, quando quer mostrar que gostou de um bom serviço.

E a gorjeta só vale para qualquer categoria profissional da iniciativa privada, que não pode exigi-la. Não vale pra quem está no serviço público, que nada mais faz do que a obrigação de atender bem a quem o paga: o povo.

Gostou do texto? Contribua para ampliar o jornalismo em Foz do Iguaçu. ASSINE JÁ

Já escutou o último episódio do GUARÊ, o podcast do H2FOZ? OUÇA AGORA

É proibida a reprodução total ou parcial deste conteúdo sem prévia autorização do H2FOZ.

H2FOZ – Editorial

Este texto expressa a opinião do H2FOZ a respeito do assunto. E-mail [email protected]Veja mais conteúdo do autor.