Dolarização e o olhar da fronteira na Argentina, que vai às urnas

Foz e a fronteira olham a eleição argentina para além dos efeitos na região de possíveis ajustes estruturais e macroeconômicos.

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Indo às urnas neste domingo, 19, os argentinos estão absolutamente divididos sobre como veem o próprio país e o caminho para resolver os problemas da nação. Na “boleta”, a cédula eleitoral, os vizinhos escolhem entre o peronista Sergio Massa, da União pela Pátria, e Javier Milei, da Aliança pela Liberdade, na votação de segundo turno.

Contrariando a maioria das pesquisas, Massa venceu a primeira volta. O atual ministro da Fazenda acena para os chamados setores orgânicos da sociedade, como os trabalhadores, diz-se afastado do kirchnerismo e se apresenta como a alternativa estável para manter a institucionalidade, aumentar receitas e reduzir despesas para dirimir os graves entraves sociais e econômicos.

Outsider de extrema-direita – ultraliberal, em outras rotulações –, Milei se ergueu sob a descrença e a frustração de parcela considerável de argentinos quanto à política e aos governos, com êxito entre os mais jovens e parte do empresariado. Suas principais propostas são a dolarização da economia, a extinção do Banco Central e a privatização, que inclui serviços públicos de saúde e educação.

O Brasil, um dos principais parceiros comerciais da Argentina, e a fronteira trinacional acompanham detidamente o desenrolar da votação que assentará novo presidente na Casa Rosada. É a própria relação entre os dois países irmãos que ganha a cena, em que Sergio Massa reivindica proximidade e Javier Milei projeta afastamento.

Foz do Iguaçu e a fronteira olham a eleição argentina para além dos efeitos na região de possíveis ajustes estruturais e macroeconômicos. Especial atenção se volta à proposta de dolarização, em detrimento da perspectiva de uma moeda nacional forte, instrumento de proteção junto aos mercados e elemento de soberania.

O que se quer puxar na história é a quebradeira de Puerto Iguazú, cidade integrada a Foz do Iguaçu e a Ciudad del Este nas Três Fronteiras, durante a experiência da dolarização nos anos 1990. O comércio, o turismo e a população foram absorvidos para o fundo do poço, no outro lado da Ponte Tancredo Neves.

Os segmentos empresariais estimaram, na época, que pelo menos 300 lojas fecharam as portas, fazendo de Puerto Iguazú uma cidade-fantasma, sem turistas e com restrita movimentação. São emblemáticos os registros da imprensa trinacional da “ferinha”, que é um tradicional ponto de encontro e de fartura, deserta e degradada naquele momento.

A análise econômica argentina crítica à ideia de dolarização aponta que a proposta seria impraticável na realidade atual pelo fator objetivo de falta de divisas. Por essa visão, a inflação galoparia ainda mais, podendo tornar-se imparável, capaz de aumentar os desequilíbrios sociais.   

A Argentina sente o peso de sucessivas crises, principalmente a da hiperinflação, em distintos períodos, pelo menos desde a década de 1980. E esse tipo particular de bipartidarismo, que leva à arena eleitoral peronismo e antiperonismo, com a aparição de um e outro “salvador da pátria” por vezes, não tem conseguido romper as adversidades cíclicas, fazendo o povo pagar a maior parte da conta.

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