Em pleno interior do Paraguai, uma comunidade preserva tradições do Japão e cultiva as encantadoras cerejeiras ornamentais conhecidas por sakura. Fundado há 63 anos, o distrito de Yguazú surgiu com a chegada de japoneses que fugiam da fome provocada pela Segunda Guerra Mundial (1939–1945).
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Tratativas feitas entre os governos do Japão e do Paraguai abriram as portas para os imigrantes, que não titubearam em cruzar oceanos até chegar ao território paraguaio para refazer a vida.
Assim surgiu a Colônia Yguazú, em 22 de agosto de 1961, que deu origem ao município de mesmo nome. Hoje com cerca de 12 mil habitantes, o distrito de Yguazú tem praças, parques e escola que remetem à cultura nipônica.
Lá vivem aproximadamente 220 famílias de japoneses e descendentes. Pelo menos 30% deles são da primeira geração. Eles convivem com paraguaios e imigrantes suíços, franceses e brasileiros que também chegaram à região.
A tradição dos ancestrais é difundida pela Associação Japonesa de Yguazú, a qual promove ações culturais e mantém escola, museu, parques e hospital.
Administrador da associação, Catalino Yozo Hirano diz que as primeiras mudas de sakura começaram a ser plantadas há 45 anos e foram trazidas de São Paulo. São das espécies Okinawa (Prunus cerasoides campanula), que tem flores avermelhadas, e Yukiwari (Prunus lannegiana), com flores de tom mais claro.
Ambas têm uma beleza inigualável e proporcionam, além da decoração paisagística, um toque de harmonia aos ambientes. Hoje, há cerca de duas mil cerejeiras em Yguazú, que mantém um viveiro da árvore símbolo do Japão.
Uma das cerejeiras foi plantada no dia 13 de setembro de 2016 pela princesa japonesa Mako durante sua visita ao distrito. “Toda essa cultura nos leva a recordar o Japão, e queremos deixar impregnado isso em Yguazú”, ressalta Hirano.
É possível contemplar as flores das cerejeiras no inverno, época propícia para desabrocharem. As cerejeiras estão por toda parte da cidade, mas é no Parque da Sakura que mais prosperam.
Escola Japonesa de Yguazú
Na Escola Japonesa de Yguazú, 140 crianças de várias nacionalidades aprendem a língua japonesa. Com aulas três vezes por semana no contraturno, a instituição tem professores voluntários do Japão e preserva tradições milenares.
Antes de entrar na sala de aula, os alunos deixam os sapatos do lado de fora e também são responsáveis pelo zelo e limpeza da escola, a exemplo do que ocorre na Terra do Sol Nascente.
Hikaru Kuroki, 26 anos, é uma das professoras voluntárias da escola. Ela chegou recentemente para passar uma temporada de dois anos em Yguazú. Enviada pelo governo japonês, ela afirma que o Paraguai é bem diferente e está gostando do trabalho.
Parque da Sakura
O Parque da Sakura foi criado para o ócio dos moradores, privilegiando jovens e quem está na terceira idade. Com cancha de minigolfe – esporte com pouco esforço físico próprio para idosos –, tem também cerejeiras e espaço para piquenique.
As cerejeiras foram plantadas lá há cerca de 15 anos e costumam florescer logo após uma onda intensa de frio. As flores duram aproximadamente 25 dias e assim que saem anunciam a proximidade da primavera.
Diretor do Museu da Imigração Japonesa de Yguazú e presidente da Associação de Idosos de Yguazú, Yatsuro Sonoda, de 74 anos, sabe detalhes sobre a época na qual os primeiros imigrantes chegaram ao Paraguai. Ele revela que a população do Japão após a Segunda Guerra era grande e não havia trabalho para todos. “Eram quase dez milhões de desempregados.”
O acordo feito entre Japão e Paraguai possibilitou, segundo Sonoda, que fossem adquiridos 87 mil hectares de terras na região de Yguazú, em 1958, para distribuir aos imigrantes. O plano era receber 80 mil pessoas, no entanto vieram perto de oito mil.
O primeiro grupo, bem pequeno, chegou em 1938. Só em 1954, com o fim da guerra, que a maioria resolveu deixar o país. O fluxo continuou até 1972, quando a economia japonesa começou a reagir.
Plantio direto
Os primeiros imigrantes foram para Iguazú graças a um convênio de migração selado entre os governos do Japão e do Paraguai. Assim, a colônia foi fundada e começou a ser administrada pela Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) até a criação do município.
Desde a chegada à região, a principal atividade dos imigrantes tem sido a agricultura. O plantio iniciou com arroz, hortaliças e outras culturas para o consumo próprio.
Com a adoção do plantio direto, os agricultores diversificaram a produção e hoje o distrito é reconhecido pela soja, trigo, nozes de macadâmia e uma ampla variedade de hortaliças. A diversidade produtiva e as técnicas de conservação do solo fizeram Yguazú receber o título de Capital do Plantio Direto.
Outra tradição da colônia Yguazú é a Expo Iguazú, que já está na 25.ª edição. Realizada todos os anos para comemorar a emancipação do distrito, a feira começou na quinta, dia 29, e vai até este domingo, dia 1.º, com artesanato, comidas típicas e apresentações culturais.