Apagões de energia e de árvores

O aumento do consumo de energia é uma soma de vários fatores, inclusive o extermínio de árvores urbanas.

Apoie! Siga-nos no Google News

Aida Franco de Lima – OPINIÃO

Casa de ferreiro, espeto de pau. Como pode uma cidade como Foz do Iguaçu, colada com Itaipu, tida como a usina líder mundial em produção de energia limpa e renovável, ter apagões tão constantes de energia, como bem narrada na matéria desse H2Foz?

Considero muito questionável falarmos que se trata de uma energia limpa, se omitirmos o significado ambiental e social das áreas que no passado foram alagadas, com uma incontável quantidade de espécies afogadas pelas águas do lago artificial. Considero questionável também o modo como dependemos de energia pra refrescar as ilhas de calor em que transformamos nossas cidades.

No ano de 2019 trabalhei um período na cidade de Frutal, em Minas Gerais, divisa com São Paulo. De dentro do hotel, com ar condicionado, quando tentava alugar um imóvel, do outro lado da linha informavam o grande diferencial, que era a presença de ar-condicionado ou ventilador de teto nos imóveis. Fui entender o significado rapidamente.

A cidade, na minha percepção, era um caldeirão exalando calor. E o que eu escutava dos moradores mais antigos era de que em outros anos, antes do predomínio de plantio de cana-de-açúcar, não era aquele sufoco. E o que eu via na cidade era a completa ausência de árvores. Aquelas que existiam, tinham as copas decepadas, as raízes sufocadas. Um projeto desenvolvido por professores da UEMG (Universidade Estadual de Minas Gerais), promovia o plantio de ipês na avenida que dava acesso ao campus e no entorno também. Mas fora isso, desconhecia alguma iniciativa do próprio município em incentivar a preservação no meio urbano.

A mesma situação também presenciei em outra cidade mineira, Arcos, assim como em Mato Grosso, na cidade de Alto Araguaia, divisa com Goiás, em Palhoça, SC e também Ponta Grossa, PR. E pode ser constatada em tantas outras cidades que imaginarmos. E o ponto que observei foi a naturalização da ausência de árvores por grande parte da população e de seus governantes.

E mesmo cidade como Maringá, conhecida por sua rica arborização urbana, já sofre com o corte excessivo de árvores. Os clarões vão tomando conta de locais que antes eram sombreados e frescos.

Gestores, população de modo geral, normalizam cidades sem árvores. Onde havia sombra, retiram as árvores, e tacam um toldo, ar-condicionado, ventilador, qualquer coisa que não tenha folha, flor, frutos, raízes, vida. E quando a população se organiza para levar mais verdes para as vias, acontece como foi em Cianorte, quando a prefeitura mandou retirar 80 árvores que plantamos no canteiro central da Avenida Paraíba, cujas antigas espécies frondosas, as tipuanas, foram substituídas por palmeiras-imperiais.

Mesmo descaso com as árvore acontece em Foz do Iguaçu, como já contamos aqui inúmeras vezes sobre devastação promovida no Bosque dos Macacos ou na Praça das Aroeiras assim como na Rodovia das Cataratas. Quando é pra construir um empreendimento que vai ser mais uma consumidor de energia e aumentar as ilhas de calor, qualquer justificativa vale para exterminar as árvores. Mas não vejo o contrário. Não vejo a desapropriação de imóvel ou terreno, para fins de reflorestamento e ampliação de áreas verdes, mesmo sabendo de todos os benefícios dessas medidas para a saúde coletiva.

Nestes exemplos, de Frutal, Cianorte e Foz, é possível observar um movimento de parte da população que tenta preservar o verde da ingerência ou omissão de órgãos públicos que deveriam protegê-lo. Mas é um percentual muito pequeno, que não dá conta de vencer a destruição em grande escala.

Outro dia escutei um vereador de uma dessas cidades perguntando o que estava sendo feito para pensar na substituição das árvores oitis, porque elas sujam muito e os frutos entopem os bueiros. A última coisa que você vai ver em bueiro é resto orgânico, porque o que entope mesmo é resíduo industrial. E aí, entra mais uma justificativa para eliminar as árvores.

Se, do dia para a noite, as cidades resolvessem plantar árvores já formadas, claro que não garantiria o fim dos apagões. Mas temos que pensar em qualidade de vida. Temos que pensar na fauna urbana, que também precisa das árvores. Nas gerações que vão desconhecer o que é uma árvore em uma calçada pública. Na possibilidade de estar em um ambiente, com conforto, sem que seja refém de ar-condicionado. Que aliás, é sonho de consumo que ainda está preso a uma bolha da sociedade devido ao seu alto custo.

A experiência da pandemia, a necessidade de espaços arejados, parece mesmo que nem impactou na engenharia das cidades. Ambientes herméticos, sem ventilação natural, com total dependência de climatização artificial parecem desconhecer o que significa a alta demanda de energia. O que parece mesmo doer é somente a conta de energia e não o impacto que tal demanda significa para o meio ambiente como um todo.

Não é por menos que os transformadores não resistem. Sucateamento e sobrecarga cada vez maior, em cidades cada vez mais quentes, com o verde das árvores dando lugar ao cinza dos concretos, só resta reclamar do clima. Como se o aumento da temperatura da Terra não tivesse relação nenhuma com diminuição da quantidade de árvores promovida diariamente, em nome do progresso.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

Quer divulgar a sua opinião. Envie o seu artigo para o e-mail portal@h2foz.com.br

LEIA TAMBÉM

Comentários estão fechados.