Aida Franco de Lima – OPINIÃO
O meteorologista Piter Scheuer vem alertando há semanas sobre o maior Super El Niño já registrado. E, infelizmente, a realidade tem dado razão aos seus avisos. Ainda no final de julho, quando boa parte da população sequer imaginava o que os dias seguintes reservariam, Scheuer advertia que as chuvas e tempestades se tornariam mais frequentes no Sul do Brasil, acompanhadas de alagamentos, enxurradas, deslizamentos e ventos fortes.
Foi quando seu alerta ficou ainda mais específico: o Paraná poderia enfrentar chuva intensa, granizo, vendavais, enchentes e acumulados superiores a 200 milímetros em algumas regiões. Seus vídeos viralizaram, e muitos o criticaram alegando que ele estaria provocando alarmismo.
Scheuer reúne cerca de 700 mil seguidores no Instagram e tem um jeito peculiar até mesmo de fazer os anúncios comerciais que ajudam a sustentar sua dedicação à plataforma. Mas, quando o assunto é meteorologia, também não costuma usar meias palavras.
Alertou para tornados, vendavais, granizo, enchentes, alagamentos e enxurradas. E houve até neve em SC! Depois dos episódios registrados, voltou ao assunto: “Infelizmente, a previsão se confirmou. Previsão não é adivinhação, é análise técnica minuciosa.” E reforçou que trabalha com “embasamento, dados, matemática, física, projeções computacionais e experiência”. Segundo Scheuer, os episódios seriam uma das consequências do El Niño, que estaria apenas começando a mostrar seus efeitos, com possibilidade de agravamento entre setembro e janeiro. “Ainda tem muito para acontecer”, advertiu.
O Super El Niño ocorre quando o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial atinge intensidade excepcional. Esse calor adicional altera a circulação da atmosfera e influencia o regime de chuvas, temperaturas e tempestades em várias partes do planeta. No Sul do Brasil, episódios fortes de El Niño costumam estar associados a chuvas mais frequentes e volumosas, embora não sejam, sozinhos, responsáveis por cada evento extremo.
Não demorou. Vieram as chuvas, os rios subiram, cidades foram atingidas, famílias tiveram de deixar suas casas e tornados voltaram a fazer parte de um vocabulário que, até pouco tempo atrás, parecia distante da rotina dos paranaenses.
Em setembro, o Paraná acumulou uma sucessão de episódios severos. Temporais trouxeram chuva intensa, granizo e vendavais; tornados foram confirmados em municípios do estado; deslizamentos e inundações deixaram milhares de pessoas afetadas. Até o dia 14, a Defesa Civil contabilizava mais de 20 mil pessoas atingidas em 72 municípios e quatro mortes relacionadas aos eventos.
Em Foz do Iguaçu, um dos cartões-postais mais conhecidos do planeta se transformou também em uma espécie de termômetro visual do que estava acontecendo na bacia hidrográfica. No início do mês, a vazão das Cataratas chegou a oito milhões de litros de água por segundo, mais de cinco vezes a média histórica, de aproximadamente 1,5 milhão. Dias depois, com novas chuvas na bacia do Rio Iguaçu, o volume voltou a disparar: no sábado, 12 de setembro, chegou a aproximadamente 10,1 milhões de litros por segundo — mais de seis vezes a média. A força da água obrigou o Parque Nacional do Iguaçu a interditar preventivamente a passarela das Cataratas por vários dias.
A imagem das Cataratas carregando mais de dez milhões de litros de água a cada segundo talvez ajude a dimensionar aquilo que os números meteorológicos nem sempre conseguem traduzir. Não era apenas chuva forte em uma cidade ou outra. Era a água precipitada sobre uma enorme bacia hidrográfica convergindo para o Rio Iguaçu e revelando, diante de milhares de visitantes, a dimensão do fenômeno.
O problema é que não estamos falando somente de uma previsão meteorológica que se confirmou. Estamos falando de sinais que se repetem. E talvez a pergunta mais importante já não seja se Piter Scheuer — ou qualquer outro meteorologista — acertou a previsão. A pergunta é: quantos alertas ainda serão necessários para entendermos que alguma coisa mudou?
E na sua cidade, o que acontece quando toda essa água chega? Existem parques lineares e áreas capazes de absorver parte desse volume? A prefeitura, além de limpar bueiros e galerias pluviais, está ampliando e adaptando o sistema de drenagem para uma realidade de chuvas cada vez mais intensas? Na frente da sua casa ou do seu prédio, a calçada permite que a água penetre no solo ou virou tudo concreto? E o quintal? Nas praças, quanto ainda é área verde e quanto foi impermeabilizado?
Olhe também para a rua. Se ela é antiga, ainda conserva algum pavimento permeável, como os velhos paralelepípedos, ou tudo foi coberto pelo asfalto? E os fundos de vale e arroios? Permanecem protegidos pela vegetação e pela mata ciliar ou foram canalizados, ocupados, degradados e, em alguns casos, transformados em esgoto a céu aberto?
Nada disso é detalhe paisagístico. É infraestrutura urbana e defesa contra eventos extremos. Quanto mais impermeabilizamos uma cidade, menos água consegue infiltrar no solo e maior é o volume que precisa escoar rapidamente pelas ruas, galerias, córregos e rios. Quando a chuva vem em quantidade superior à capacidade desse sistema, a água procura outro caminho.
As respostas a essas perguntas ajudam a dimensionar o que vem pela frente. Porque, diante de volumes cada vez maiores de água, haverá duas possibilidades: ou nossas cidades aprendem a dar passagem e espaço para ela ou a água abrirá seu próprio caminho — levando o que encontrar pela frente.
Em seu último vídeo, de 15 de setembro, Piter diz que vem “chumbo grosso”. Que o mapa prevê forte precipitação para outubro, que se isso ocorrer pode haver chuva com até 600 milímetros. Que é uma projeção que não pode ser ignorada, visto que outubro já é caracterizado por chuvas. Em setembro, no Paraná, haverá chuvas acima da média, atingindo principalmente o Noroeste, Centro, Oeste e Sudoeste. Para dezembro há previsões de muita chuva para o Paraguai e a Argentina. E então, quais medidas vamos tomar?
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