Fronteira fechada? Que nada! Por R$ 150 se passa do Brasil à Argentina

Puerto Iguazú, à direita. Ao fundo, a Ponte Tancredo Neves, ainda fechada ao turismo. Mas a movimentação ilegal só aumentou. Foto: JL/Google Maps

Portal de Misiones acompanhou como funciona o esquema de tráfego ilegal de mercadorias e pessoas, entre os três países.

Por falta de emprego – e o governo insiste em manter a fronteira fechada -, muitos argentinos de Puerto Iguazú passaram a se dedicar a uma atividade ilegal e até perigosa.

Em reportagem assinada por Agustín Mazo, o portal El Territorio constatou que há uma grande estrutura dedicada ao transporte de mercadorias e pessoas entre a Argentina, o Brasil e o Paraguai. E todo mundo sabe disso. “É vox populi”, diz o repórter Agustín Mazo, autor da matéria.

Até no Facebook, em grupos como os de “Compra y Venta”, são contratadas pessoas para o traslado de mercadorias e de turistas de um lado a outro da tríplice fronteira.

Repórter e fotógrafo de El Territorio, com base no “boca a boca”, se dirigiram à região hoteleira conhecida como 600 Hectares, em Puerto Iguazú, num local onde a distância para atravessar o Rio Iguaçu, da costa argentina à brasileira, é de aproximadamente 500 metros.

Para chegar à costa argentina, conta Agustín, existem numerosos caminhos que atravessam a espessa e rica vegetação do local. Só os conhecedores do terreno sabem as trilhas certas.

É preciso percorrer um trecho de mais de 600 metros, em meio à mata, e às vezes só os troncos das árvores e os galhos servem de apoio em caso de alguém escorregar, conta o repórter.

Numa das reportagens, o portal El Territorio informou que locais onde havia contrabando “formiguinha”, em Misiones, “hoje alcançam níveis de ‘aduanas paralelas'”, com travessia diária de grandes carregamentos de mercadorias. Existem até “pacotes de turismo”, oferecidos por redes sociais, para a passagem de pessoas de um país a outro. A fronteira fechada não impede, portanto, que o coronavírus também entre “ilegalmente” na Argentina. Foto: Marcos Labanca

TRAVESSIAS

Quando estavam perto da costa, os repórteres de El Territorio viram uma brasileira que acabara de chegar numa lancha, vinda de Foz do Iguaçu. Aparentemente, estava sendo esperada na avenida principal que conduz aos hotéis por algum familiar ou carro de turismo.

Atrás dela seguia um rapaz, chamado Jorge, que por R$ 150 havia sido contratado em Foz para acompanhar a mulher.

“Se não fazemos isto, não conseguimos nada. Eu trabalho do outro lado, mas quando há passageiros nós os trazemos aqui. Às vezes (também) mercadorias”.

Ele falou que o maior risco é ser flagrado pela polícia brasileira, que não poupa munição. Depois da conversa, ele rapidamente sumiu nas trilhas.

ORGANIZAÇÕES

As pequenas organizações que se dedicam ao tráfego de pessoas e mercadorias utilizam lanchas motorizadas ou canoas, nas costas dos três países.

Os “paseros” (que fazem o transporte de mercadorias) são contratados por capatazes, que por sua vez respondem a quem contratou o serviço. As mercadorias passam de um lado a outro da tríplice fronteira. Pelo Rio Iguaçu, no caso de Brasil e Argentina; e pelo Rio Paraná, entre Argentina e Paraguai.

A “azeitada estrutura”, diz o repórter, envolve também o trabalho de menores de idade.

NA COSTA

Depois do encontro com Jorge, os repórteres chegaram ao final da trilha, que levava a um ponto onde embarcam e desembarcam passageiros de lanchas, já que a passagem de mercadorias é feita em outros pontos dos 600 Hectares.

Viram, então, um grupo de seis rapazes, entre adolescentes e adultos, que também se dirigiam rapidamente à costa. Um deles gabou-se de ter trazido turistas a Puerto Iguazú e recebido euros como pagamento.

E o movimento não é pequeno. Minutos mais tarde, apareceram mais dois jovens em terra e um terceiro, encarregado de conduzir uma lancha que esperava para voltar ao Brasil.

Os rapazes haviam trazido a Puerto Iguazú um casal de paraguaios. Quando viram os repórteres, eles perguntaram se queriam fazer a travessia. Foi quando os jornalistas souberam o custo: R$ 150 por pessoa e R$ 30 pela bagagem.

Dos R$ 30, eles contaram que R$ 10 vão para o transportador, outros R$ 10 para o condutor da embarcação e o restante para o dono do motor da lancha.

MOVIMENTO

Um dos “paseros” comentou que, habitualmente, costumam fazer entre 5 e 15 travessias por dia, dependendo da quantidade de clientes e dos controles da Prefeitura Naval Argentina na região.

O jovem contou que está na atividade já há algum tempo e que é uma forma de ganhar alguns pesos sem prejudicar ninguém. “Eu estou todos os dias no Brasil. Agora há pouco eu estava em minha casa (em Puerto Iguazú), fazendo um piso, quando meu patrão me chamou pra trabalhar.”

Logo depois, os paseros foram até a lancha e voltaram ao Brasil. Depois de esperar algum tempo, os repórteres constataram que aquela havia sido a última travessia da manhã, no local.

O QUE ENTRA E SAI

Pelo que ouviram dos “paseros”, as mercadorias que vêm de Puerto Iguazú para Foz são, principalmente, botijões de gás, azeite de oliva, azeitonas e diferentes tipos de embutidos.

Do Brasil, seguem produtos eletrônicos, roupas e sapatos, que em Misiones chegam a custar até três vezes mais do que em Foz.

ARGENTINA AO PARAGUAI

A travessia entre a Argentina e o Paraguai é feita, em Puerto Iguazú, nos bairros Santa Rosa e Altos del Paraná. Um dos locais é a baixada onde ficam as lanchas do Clube de Pesca Pirá Guazú.

No local, havia um jovem encarregado de cuidar do portão de acesso à costa. Sua missão era cobrar 100 pesos por pessoa. Quem quer atravessar o Rio Paraná para ir a Presidente Franco, no Paraguai, precisa pagar em torno de 5 mil pesos (no câmbio oficial, quase R$ 270, mas na reportagem consta que o valor equivale a R$ 150).

De Puerto Iguazú, seguem para Presidente Franco produtos como ovos, frangos, azeite de oliva e farinha, entre outros. Do Paraguai, vêm eletrodomésticos, roupas e calçados.

Enquanto estavam no local, os repórteres ouviam uma FM paraguaia. Um locutor, em tom brincalhão, comentava que “o contrabando vem da Argentina. Do Brasil, por sorte, não entra, por sorte não entram ovos do Brasil”, ironizava.

O portal El Territorio dedicou grande parte da edição deste domingo à fronteira fechada e ao aumento do contrabando entre a Argentina e os países vizinhos.

Pelos títulos das reportagens já se tem noção de como está a situação hoje:

O contrabando em tempos de fronteiras fechadas

Em Iguazú, por 150 reais, se passa ilegalmente de uma costa a outra

Nando Teles, o jovem que se afogou quando fugia do Exército do Brasil

O contrabando de soja, um negócio milionário que corrompeu as Forças

“Ganhamos o dia e o fazemos por necessidade”

Os caminhões com mercadoria apreendida que a UR IV envia à Aduanas

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Claudio Dalla Benetta - H2FOZ

Cláudio Dalla Benetta é jornalista e repórter do H2FOZ. e-mail: [email protected] Veja mais mais conteúdo do autor.

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