Aida Franco de Lima – OPINIÃO
No filme O Dia Depois de Amanhã, de 2004, a humanidade recebe sinais, ignora os avisos e só acredita na crise climática quando ela bate à porta. No domingo, o Brasil escolheu um Congresso no qual o PL, caracterizado por negar os problemas ambientais e a Ciência, terá 121 dos 513 deputados e ampliará fortemente sua presença no Senado. Entre os eleitos estão Michelle Bolsonaro, Bia Kicis, Filipe Barros, Gustavo Gayer e Carlos Bolsonaro. A vida real está imitando, perfeitamente, a sétima arte.
Alguns personagens já deixaram pistas. Plínio Valério chamou defensores da agenda climática de “trombeteiros do apocalipse climático”. Bia Kicis criticou a proposta de uma autoridade climática, dizendo que serviria “só para gastar mais dinheiro”. Michelle Bolsonaro carrega um episódio que parece pequena alegoria desse debate: no fim do governo Bolsonaro, pediu que fossem recolhidas as moedas depositadas no espelho d’água do Palácio da Alvorada. Durante a operação de esvaziamento e limpeza, a maioria das cerca de 70 carpas morreu. Um servidor atribuiu a ordem à então primeira-dama; Michelle negou responsabilidade pelas mortes e afirmou que R$ 2.213,55 recolhidos foram destinados a uma instituição beneficente. As carpas pagaram o pato.
No Congresso, porém, as moedas viram bilhões, e o lago se transforma em território. Estão em disputa licenciamento ambiental, mineração, proteção das florestas e das terras indígenas, fiscalização e as tão faladas terras raras. Filipe Barros, agora eleito senador pelo Paraná, apoiou mudanças no licenciamento ambiental. Se há quem ainda pense que proteger o meio ambiente é coisa de “bicho grilo”, a ameaça vem de terno e gravata.
O Dia Depois de Amanhã termina quando os sobreviventes finalmente compreendem os avisos que ignoraram. A natureza brasileira não precisa esperar pelo último ato. Chuva não consulta partido; seca não pede título de eleitor; enchente não pergunta em quem votamos. O novo Congresso toma posse em 2027, mas suas escolhas começaram nas urnas. A eleição foi domingo. Para o meio ambiente, o dia depois de amanhã já começou.
E como será a vida de quem não tem uma segunda residência para escolher onde abrigar-se? O que será da vida selvagem, espremida pelo avanço dos grãos, das pastagens e do fogo? Quantas vidas ainda serão ceifadas por enchentes, tempestades, ondas de calor e tornados cada vez mais presentes no nosso cotidiano? O Dia Depois de Amanhã não é mais uma ficção tão distante. No celular, a Defesa Civil nos manda alertas sobre o que está por vir, e nas urnas deixamos nossa decisão. Cabe a cada eleitor decidir se leva a sério os avisos ou os trata como spans.
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