As ilhas de calor que brotam pelas cidades

Pistas de caminhada ou ciclismo raramente priorizam material que facilite a absorção de água.

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Aida Franco de Lima – OPINIÃO

Está cada dia mais insuportável o calorão. Enquanto a televisão mostra o aumento das vendas de ar-condicionado e ventilador, ou as alternativas para manter a hidratação nestes dias tão quentes, o que é que as prefeituras estão fazendo? Ampliando as ilhas de calor!

Não sei exatamente o que é, mas parece uma febre que vai se espalhando de norte a sul do Brasil, em que as cidades ficam parecendo com um não lugar. Ou seja, um espaço sem identidade, sem história. Como quando você está viajando e passando por rodoviárias e aeroportos e nem faz muita diferença o nome da cidade ou país.

É muito provável que de onde você esteja lendo esse texto, locais antes arborizados e com gramados, hoje deram lugar a palmeiras, talvez, imperiais. Outra febre depois das Academias da Terceira Idade (ATIs) tem sido as quadras de gramado sintético e as pistas de caminhada ou ciclovias que cortam as cidades. Pistas com puro concreto, sem a preocupação em buscar um material que promova a infiltração da água no solo. Que não segure o calor!



Claro que é muito importante estimular os meios de transporte alternativos, a prática de exercícios. Mas será mesmo que os milhares de quilômetros de concreto atendem ao interesse coletivo?

É muito importante, como já foi dito, promover espaços para que a mobilidade sobre rodas não se limite às ruas e avenidas. Porém o que se percebe muitas vezes é que o custo benefício dos investimentos parece atender mais a interesses de construtoras que da comunidade local. Normalmente, ela necessita mesmo de um banco, de um bueiro desentupido, de uma galeria pluvial que escorra a água e não transborde.

Muitas vezes a comunidade quer um quebra-molas, um parquinho com grama e brinquedos, uma sinalização para dar mais segurança no trânsito. Lixeiras adequadas, varrição de rua frequentes, podas de árvores de modo bem feito e não só depois da tempestade. E o plantio de árvores. Muitas árvores. Inclusive frutíferas. Mas precisa regar também. Não adianta plantar e deixar morrer.

Será que o fluxo nas regiões dos canteiros centrais, engolidos até então por vagas de estacionamento, e agora compactados com concreto, foi estudado e realmente há ou haverá um uso que justifique tais estruturas? E o custo para além da elaboração? Quanto de recursos públicos serão destinados à manutenção de calçamentos por onde passam um ou outro gato pingado e na maior parte do tempo fica ocioso?

Observem as praças que passam por revitalização. Entra prefeito e sai prefeito, e promovem editais milionários que prometem transformar praças em uma das maravilhas do mundo. E no final das contas, é só mais um ambiente cheio de concreto. A grama vira estorvo, como se não fosse possível conectá-la com os demais elementos. Tem até cidade implementando grama sintética em parquinho, um dos últimos locais onde as crianças podiam ter contato direto com a terra.

Tem cidade que desmata área verde protegida por lei, para abrir trilha supostamente ecológica. Que em nome da acessibilidade passa cimento por entre as raízes das árvores e vende nas redes sociais um paraíso. Quando na verdade, provoca dano ambiental e interfere no microclima.

Eu não sei você, mas eu ando pela cidade observando tudo. E percebo o quanto as grandes obras públicas não resistem ao uso da comunidade. Claro que tem os vândalos, a cultura de achar que o que é público não é de ninguém. Mas com tanta tecnologia, por qual motivo as prefeituras que inauguram praças e bens públicos, não se preocupam em monitorar estes locais?

A geração mais velha deve lembrar dos guardinhas que cuidavam dos espaços públicos e até faziam a ronda pelas noites, nas ruas dos bairros. Eles foram substituídos por empresas e seus terceirizados e estão por todos os lados. Só não os vejo cuidando de certos bens públicos, como as praças. Deviam por nas licitações, já o custo de manutenção e prevenção. Não adianta apenas jogar a culpa na população que vandaliza praças. Se não tiver vigilância e punição, dificilmente a situação muda.

Mas voltando às ilhas de calor… Nossas cidades estão ficando cada vez mais quentes, o solo não respira, é concreto por todo lado, fora os cortes de árvores exagerados. Então, não tem como não dar errado. E quem mais sofre, são os mais pobres. É a camada que está na base da pirâmide que sustenta uma fração da sociedade que não sente diretamente os reflexos, porque está protegida por aparatos tecnológicos, com casas inteligentes, trabalhos em ambientes refrigerados, férias em resorts, planos de saúde, e tudo mais que seja possível comprar.

Quem anda, mora, trabalha ou frequenta apenas ambientes climatizados quase não percebe o calor. O gestor público que não caminha pelos bairros, que não anda na muvuca dos horários de pico nas vias urbanas nem sonha o quanto as ilhas de calor impactam na qualidade de vida das pessoas.

Neste ano tem eleições para prefeitos e vereadores. É importante cobrar destes políticos medidas que dialoguem com os novos tempos. Onda é algo temporário, que vai e volta. Mas o calor, estamos percebendo que veio para ficar. É preciso rever conceitos e enxergar a vida que existe além das redes sociais, onde parece viver a maioria dos gestores.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

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