Uma das maiores ações de resgate de fauna já registradas na região, a operação Mymba-Kuera (pega-bicho, do guarani) não impediu que inúmeros animais perecessem diante de um verdadeiro dilúvio que avançou sobre seu habitat em 1982. Era a formação do reservatório da Itaipu Binacional, quando um lago era criado, impacto na fauna e na flora.
Biólogo do Rio de Janeiro, Cláudio Araújo veio à região lindeira como voluntário e revelou estarrecimento com o que viu. “Muitos [animais] sucumbiram, morreram por afogamento ou inanição, e outros fugiram para áreas periféricas”, narrou ao jornal Nosso Tempo, na época. Para ele, melhor planejamento e estrutura teriam reduzido perdas e sofrimento.
Quatro décadas depois, são os resultados dos investimentos contínuos em conservação que pedem destaque. Um dos pilares desse trabalho é o Refúgio Biológico Bela Vista, em Foz do Iguaçu, inicialmente criado para abrigar os animais da operação Mymba-Kuera, mas que se tornou o epicentro de iniciativas de proteção, pesquisa e turismo baseadas na educação ambiental.
São 42 anos da criação das áreas protegidas da Itaipu, com o plantio de mais de 24 milhões de árvores nativas à margem brasileira do Rio Paraná, em um processo contínuo de restauração da Mata Atlântica. Esse trabalho quase triplicou a diversidade de espécies florestais da faixa protegida.
Quanto à fauna silvestre, a referência está na reprodução em cativeiro, na reintrodução de espécies e na pesquisa ecológica. É o que possibilita novos voos às harpias e atenção a espécies sob risco de extinção, como o mutum-de-penacho. Mas não só: 64 animais, entre eles antas e jacutingas, nasceram apenas no ano passado no Refúgio Biológico.
Assim, em Foz do Iguaçu, é um privilégio olhar para um lado da cidade e constatar a exuberância do Parque Nacional do Iguaçu; no outro, os frutos que germinaram a partir dos impactos do progresso. Os dois ambientes, ricamente verdes, convidam a muitas reflexões. Uma delas é a de que avanços alcançados não sofram revezes, com a política ambiental devendo ser agenda fixa de governos.
Outra, imediata e próxima de cada morador, é sobre a proteção dos recursos naturais urbanos, quer dizer, dentro da cidade. Essa preocupação deve englobar dos parques e bosques aos rios, das praças públicas à facilitada supressão de árvores, seja em frente às residências ou para o avanço de grandes empreendimentos. A Foz do Iguaçu verde deve ser um compromisso, não somente slogan.

