Hoteleiro de Puerto Iguazú (mais um) desiste do negócio e vai virar agricultor

Previsão é que a fronteira da Argentina com o Brasil reabra só em julho, quando a imunização já tiver atingido grande parte de argentinos e brasileiros. Mas ninguém sabe como será o comportamento do vírus pós ou na fase de vacinação.

Enquanto isso, acirra-se a crise em Puerto Iguazú. Esta semana, mais um hoteleiro da cidade desistiu da atividade. Depois de 17 anos, o hotel Natural Iguazú fecha as portas e arremata tudo, já que o dono acredita “num ano igual ou pior” que 2020. E não é o primeiro hotel da cidade que fechou.

Nos primeiros dias de janeiro, já havia fechado outro hotel, que, como o Natural Iguazú, funcionava no centro da cidade. Depois de 10 anos de funcionamento, o Apart Hotel Bosetti encerrou atividades. “É impossível continuar”, disse o dono, Federico Rodríguez, ao La Voz de Cataratas.

O hoteleiro Jorge Burton, também em entrevista ao La Voz de Cataratas, afirmou que, “ainda que não pareça, tomar a decisão foi muito fácil. Sobrevivemos o ano passado vendendo nossas coisas, com a esperança de que se renovasse o turismo. Primeiro, em julho, depois em setembro, depois no verão (previsão do governo para reabrir fronteiras)”.

A Associação de Hotéis de Turismo informou que, embora 90% dos hotéis afiliados estejam funcionando, a ocupação é muito baixa. É por isso que empreendimentos pequenos e médios tomam a decisão de fechar, já que não conseguem cobrir os custos com o nível de ocupação tão baixo.

É isso o que explicou Jorge Burton. “Para que seja rentável abrir, o movimento turístico teria que ser igual ao que tínhamos em fevereiro ou março do ano passado, mas agora não chega nem a 10% do movimento normal. Abrir agora seria só para perder dinheiro”, explicou ao La Voz de Cataratas.

Quase tudo que era usado no hotel foi vendido na segunda-feira, 18, segundo uma das encarregadas de receber os interessados. Produtos como geladeiras, televisores, colchões e lençóis esgotaram rapidamente.

O prédio onde funcionava o hotel era alugado, mas o proprietário deixou de cobrar pela locação quando a fronteira fechou e a crise ficou aguda. O hoteleiro, agora, não quer mais falar sobre negócios na Argentina.

Ele contou que possui uma chácara na área conhecida como “2.000 hectares”, em Puerto Iguazú, e é lá que vai viver, pelo menos por enquanto. “Mais adiante não sei o que vou fazer”, afirmou, um pouco desanimado.

SEM TURISMO DE FRONTEIRA

O portal Independiente Iguazú também ouviu empresários da cidade para saber como encaram a situação atual, que em tempos normais seria de temporada do turismo.

O empresário Jorge Antonio, do setor de gastronomia e integrante da diretoria da Associação Hoteleira e Gastronômica de Iguaçu, disse que não acredita na volta do turismo de fronteira e dos compristas vizinhos.

“A atividade gastronômica não tem possibilidade de sobrevivência, a curto prazo. A fronteira vai estar fechada, pelo menos até julho (desde que as vacinas tenham um impacto positivo). Se isso acontecer e for aberta a fronteira, poderíamos ter alguma atividade que poderia chegar a ser boa, pelo tipo de câmbio, com o qual é possível que a gastronomia e o comércio se recuperem rapidamente ou, ao menos, em menor tempo que outros setores. Mas o turismo, ainda mais o turismo de fronteira ou dos compristas vizinhos, não vamos ter”.

Segundo a previsão dele, nem o turismo nacional terá um impacto significativo. Agora em janeiro, que foi sempre o mês de maior ocupação dos hotéis, o número de hóspedes não chega a representar de 10% a 15% de ocupação. “E esses números não vão melhorar com a quantidade de voos que temos hoje (um, dois ou três por dia, no melhor dos casos), ainda por cima com poucos passageiros”.

Jorge Antonio não acredita, também, que o turismo internacional volte este ano. Lá por outubro, “quando começa a temporada, a vacina talvez não tenha ainda um impacto muito grande na Europa e Estados Unidos”. E lembrou, ainda, que a faixa etária mais importante dos turistas estrangeiros geralmente é de terceira idade, que é impactada pela covid-19.

A única coisa que resta, de acordo com o empresário, é pedir ao governo da província de Misiones para que procure ajudar o setor, com créditos baratos, redução de cargas sociais e outras medidas.

“Se isso não acontecer, as empresas vão começar a fechar e a suspender empregados sem que nada recebam. A crise que vem é terrível, vai ser pior que agora, porque agora, com o ATP (um programa de assistência do governo para atender pessoas e empresas afetadas pela pandemia), os empregados podem ir sobrevivendo, mas há uma massa salarial muito importante que está pendendo por um fio”, analisou o empresário.

SUSTENTO DO ESTADO

O também empresário hoteleiro Santiago Lucenti, presidente da Associação Hoteleira e Gastronômica de Iguaçu, também considerou que está ficando cada vez mais difícil. “Não vamos resistir muito mais a esta situação, sem um acompanhamento e sustentação do Estado, tanto nacional como provincial”.

Diego Bruno, que é proprietário de uma cadeia de locais gastronômicos em Puerto Iguazú, disse que o movimento “está um pouquinho melhor, aumentando pouco a pouco, mas obviamente, quando comparamos com o ano passado, estamos muito mal”.

Segundo ele, o faturamento de seus negócios está 83% abaixo do que era em 2019. Mas, na comparação com dezembro de 2020, está entre 40% e 50% melhor. “Esperemos que continue crescendo, para que fiquemos mais próximos dos níveis de antes, mas isso não vai acontecer até que se abra a fronteira”, concluiu.

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Claudio Dalla Benetta - H2FOZ

Cláudio Dalla Benetta é repórter do H2FOZ. e-mail: [email protected] Veja mais mais conteúdo do autor.

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