Tráfico de pessoas cresce mesmo com a pandemia

H2FOZ – Denise Paro 

O isolamento social provocado pela pandemia da covid-19 fez crescer o número de denúncias relacionadas ao tráfico de pessoas no Paraná. Conforme dados do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Secretaria de Justiça, Família e Trabalho (Sejuf), entre julho de 2019 e maio deste ano, foram registradas 119 denúncias.

A internet é um dos meios de aliciamento das vítimas nesta fase. Postagens com falsas oportunidades de emprego, neste momento de vulnerabilidade econômica, circulam em redes sociais como o Facebook e o Instagram, atraindo até mesmo quem tem curso superior, diz Silvia Cristina Xavier, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento do Paraná.

Silvia participou de uma live promovida pela Câmara Técnica de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, em Foz do Iguaçu, no dia 15 de julho, para falar sobre o assunto. Ela informou que atualmente o núcleo vem recebendo inúmeras denúncias, inclusive de pessoas que têm medo de formalizar as acusações. “Com a pandemia aumentou e na pós-pandemia o número de casos deve explodir”, comentou. 

“Com a pandemia aumentou e na pós-pandemia o número de casos deve explodir.”

Com dificuldade de circular por vias legais para ir de um país a outro, muitas pessoas devem recorrer à rede de traficantes nesta fase, avalia a professora do Departamento de Estudos Internacionais da Universidade Loyola Andalucía, da Espanha, Waldimeiry Correa da Silva, outra convidada pela Câmara Técnica de Enfretamento ao Tráfico de Pessoas na live. “A pessoa paga com o trabalho, com seu corpo, ou parte do corpo, e entra na dívida”, explicou. 

Uma das dificuldades no combate ao crime é a condição das próprias vítimas. Muitas vezes são ludibriadas por falsas promessas de emprego ou não reconhecem que estão sendo exploradas porque atribuem o trabalho desempenhado a uma forma de sustento. 

O que mais caracteriza o tráfico de pessoas é a ameaça, transporte, alijamento. A vítima tem o documento retido pelas quadrilhas e perde a liberdade. 

Exploração sexual, adoção ilegal de crianças, servidão por dívida e trabalho análogo ao escravo 

Entre as denúncias que chegam ao Núcleo de Enfrentamento do Paraná, a mais comum é relativa ao crime de exploração sexual de mulheres e adolescentes, embora também haja registros de adoção ilegal de crianças, servidão por dívida e trabalho análogo ao escravo. Na região de Foz do Iguaçu, a exploração do trabalho, entre o qual o doméstico, sobressai. Na cidade é comum mulheres paraguaias trabalharem em condições precárias. “É algo tão natural na região que não se percebe”, salientou Silvia. 

Em live realizada pela Sejuf na quinta, 30 de julho, Dia Mundial de Combate ao Tráfico de Pessoas, o chefe de Serviços de Repressão ao Tráfico de Pessoas e Contrabando de Migrantes da Polícia Federal (PF), Joziel de Barros, destacou que o tráfico de pessoas é um dos crimes que mais crescem no mundo. A perspectiva, conforme Barros, é a de que esse tipo de crime supere, na próxima década, em montante e volume de dinheiro, o tráfico de drogas e de armas, convertendo-se na ilegalidade que movimentará mais valores. 

Nos últimos dois anos, segundo Barros, o número de inquéritos relativos ao tráfico de pessoas subiu mais de 100% no país. No evento, Barros citou estimativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicando que a lucratividade do tráfico chega a R$ 150 bilhões. 

No ano passado, entre as operações realizadas pela PF, foram identificados contrabandistas de imigrantes que chegaram a levar terroristas para os Estados Unidos. “Isso é um problema de todos, não é do Brasil, dos Estados Unidos e das nações desenvolvidas. O problema tende-se a agravar, e na pós-pandemia ainda mais”, frisou Barros. 

Em todo o Brasil, o panorama é preocupante. Entre 2014 e o início de julho deste ano, o Ministério Público do Trabalho recebeu 1.496 denúncias de aliciamento e tráfico de trabalhadores. Em 2018 e 2019, 184 brasileiros foram tirados do país por traficantes de pessoas, 30 deles, ou seja, 16%, correspondiam a crianças e adolescentes. Apesar dos registros, os casos são subnotificados. 

Em Foz do Iguaçu, tratativas já foram iniciadas para instalar um posto avançado para o combate ao tráfico de pessoas. Os postos funcionam em locais com fluxo internacional e facilitam o atendimento, além de servir como ponto de orientação e informação. Atualmente, há postos operando os Aeroportos do Galeão (RJ) e Cumbica (SP).

Para fazer denúncias, os canais são:  
181 – Disque Denúncia
Disque 100
[email protected]

 

Alexandre Palmar

Repórter e Editor do H2FOZ e-mail: [email protected] Mais por Alexandre Palmar

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