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Infortúnios da favela

Infortúnios da favela
(Foto: Foto: Futiba)

* Alexandre Palmar

Os três moleques eram a alegria da favela, batizada de Vila do Sossego. Entre uma pelada e outra, faziam planos para o futuro e disputavam prêmios tolos para ver quem apresentaria os primeiros sinais de puberdade, como o engrossar da voz ou o crescer dos pêlos. De tão cúmplices, idolatravam as mesmas musas, algumas vezes sozinhos, outras vezes em grupo.

Joel, o mais rápido nos jogos de futebol, foi o primeiro a quebrar o cotidiano. Aos 17 anos, foi atingido nas costas por uma bala perdida. Nos seis primeiros meses como paraplégico procurou distração em partidas de vídeo-game e programas televisivos. Já bem mais magro, buscou na religião uma chance de vida. Sua fé o levou rapidamente para o céu de Foz do Iguaçu.

O bairro iria reservar outros infortúnios para dois outros moradores. Um ano após a morte do amigo, Valdecir foi baleado na saída de um bailão. Ele teve sorte, sobreviveu, mas ficou sem movimento no braço direito. Mesmo assim, por algum tempo, conseguiu um emprego como mensageiro na rodoviária. 

Já Roberto aproveitou a condição social e apostou no aprendizado escolar parar crescer na vida. Dito e feito. Dez anos se passaram, o menino ruim de bola trilhou as cadeiras acadêmicas até voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído. Levou um choque ao rever os remanescentes das peladas dos finais de semana.

A rua de terra fora transformada em assalto, enquanto a pista de “bicicross” se tornou um abrigo de usuários de crack. Lá tinha desde crianças, mulheres grávidas, desempregados e malandros. Em tempos de individualismo, a melhor ajuda dos vizinhos foi ter ignorado os desgarrados e empurrá-los para longe.

Roberto resolveu procurar Valdecir. Avistou-o num longínquo boteco atendendo clientes. Na caminhada rumo ao bar, foi alertado que o proprietário era um novo revendedor de drogas. Abatido, Roberto preferiu ir para casa sem saber quem teria mais desilusão: o companheiro por apresentar-se como um desempregado traficante ou ele, que, após anos de espera, poderia rever mais um amigo com os dias contados. 

* Alexandre Palmar é jornalista em Foz do Iguaçu e editor do H2FOZ.

Publicado originalmente na Folha de Londrina em 21 de novembro de 2002.