Projeto Sopão espera apoio da Itaipu para não fechar as portas

Ação solidária existe em Foz do Iguaçu há 17 anos, conhecida pelas Kombis de entrega de alimentos; veja o que diz a binacional.

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Ação solidária nas comunidades periféricas de Foz do Iguaçu, que atende inclusive a população em situação de rua, o Projeto Sopão pode fechar as portas por falta de apoio, após 17 anos de atividades. A direção da entidade diz não ter condições de comprar alimentos para os beneficiários, sendo insuficiente o que é arrecadado com doações.

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A associação espera contar com o apoio da Itaipu Binacional, que repassou o último auxílio financeiro em 2022, o equivalente a R$ 8 mil mensais, permitindo adquirir alimentos para atender duas mil pessoas, relata a direção. São famílias em vulnerabilidade social que vivem no Portal da Foz, além de ações itinerantes por favelas, praças e locais degradados da cidade.

O trabalho é conhecido na cidade pelas Kombis que percorriam mais de 80 quilômetros toda semana, entregando marmitas, cobertores e capas de chuva a moradores de rua. Hoje, são quatro projetos que carecem de apoio para seguir: Sopão da Madrugada, Banho Nova Esperança, Café com as Crianças e Mão Forte, que atende 320 famílias – com os recursos da Itaipu, poderia atingir duas mil.

No ano passado, a organização não governamental que executa os projetos, a Anjos da Madrugada, teve o pedido de apoio financeiro negado pela binacional, mas diz que iniciativas locais com propostas semelhantes de entrega de cestas básicas foram apoiadas. A ONG não possui subvenção ou ajuda da prefeitura.

“A entidade registrou ofício com toda a documentação certa, e a justificativa que obtivemos foi a de que a Itaipu não tinha mais orçamento para atender ao nosso pedido”, relatou o presidente do Projeto Anjos da Madrugada, Johnson Mateus Santos. “Mas éramos apoiados na gestão anterior, entre 2019 e 2022”, citou.

A Itaipu afirmou ao H2FOZ que o pedido do Projeto Sopão foi para a modalidade denominada auxílio eventual, com o mesmo objeto da solicitação contemplado no ano anterior. “A repetição descaracteriza o fundo de auxílio eventual, que existe com o propósito de enfrentar contingências sociais como emergências”, expôs.

“Portanto, não foi atendido o pedido de auxílio eventual em 2023 porque a repetição da solicitação com o mesmo objeto de 2022 o caracterizou como um benefício ou uma ação continuada, que impede juridicamente a sua aprovação”, completou a usina, via assessoria. “Neste caso, o instrumento jurídico mais adequado seria um convênio”, reportou.

Johnson contra-argumenta. “Fomos orientados pela própria equipe técnica da Itaipu a alterar o nosso pedido, para que não fosse mais como auxílio emergencial. Só queremos manter o apoio da empresa para assegurarmos cestas básicas e alimentos, de modo complementar aos nossos demais trabalhos, como o banho solidário e outros”, apontou.

“Se a atual direção [da Itaipu] não nos atender, vamos sobreviver só com doações nos semáforos e mercados”, narrou. “Como cai muito a nossa capacidade de atendimento, não descartamos fechar as portas de um trabalho de 17 anos, pois sem apoio do poder público fica muito difícil para nós”, desabafou o idealizador do Projeto Anjos da Madrugada.

O barracão da entidade, entre o Morumbi e o Portal da Foz, atende pessoas vulneráreis das quais o poder público está distante – foto: Arquivo Projeto Sopão


A associação é reconhecida por lei municipal como de utilidade pública. Mantém um barracão comunitário no Portal da Foz e, ano passado, recebeu doações para fortalecer a estrutura de atendimento, a exemplo de uma Strada, doada pela própria Itaipu, e um ônibus da Receita Federal, que está sendo adaptado para ser refeitório e ofertar serviços de banho, corte de cabelo e barba.

No ano passado, mais de cem mil pessoas integravam famílias na pobreza e extrema pobreza em Foz do Iguaçu, com renda familiar per capita mensal de até R$ 660. Em agosto de 2022, a cidade registrou 790 pessoas em situação de rua, aumento de 17% no ano, sendo o maior número desde 2012 e o maior contingente entre as cidades do Paraná, excetuando a capital, Curitiba.

“Preconceito a pobre”

Para o presidente do Projeto Anjos da Madrugada, Johnson Mateus Santos, a dificuldade de encontrar apoio mais constante tem a ver, de modo geral, com o que ele considera ser “preconceito a pobre”. O voluntário sustenta que a entidade leva o seu trabalho a populações que o poder público pouco alcança, como a extensa borda paupérrima entre o Morumbi e o Portal da Foz.

“São crianças, famílias e idosos que atendemos. Mas, muitas vezes, o poder público demonstra o seu preconceito com pobre”, asseverou. “A prefeitura diz que a mão que estendemos a moradores de rua os faz ficar nas ruas. Há um ano não saímos com as nossas Kombis, e a população nessa situação só aumentou em Foz do Iguaçu”, criticou Johnson.

Qualquer pessoa ou empresa pode contribuir com as ações do Projeto Sopão em Foz do Iguaçu, com doações via Pix: 09.333.897.000140. Para doar alimentos ou realizar outras ofertas, basta entrar em contato pelo WhatsApp: (45) 99904-9733.

Critérios e valores

Haja vista apoios anunciados pela Itaipu Binacional a diversas organizações sociais, a reportagem perguntou quais são os critérios gerais para a seleção. E indagou se a Anjos da Madrugada atende a essas normas. A instituição respondeu que os convênios seguem critérios técnicos em níveis administrativos, jurídicos e financeiros.

“Os pedidos são recebidos e passam primeiramente pelo Compliance para verificar se não há impedimento na avaliação”, relatou. “Depois são encaminhados às comissões que vão dar parecer sobre a viabilidade dos pedidos e verificar se a documentação está toda em ordem, bem como se não há pendências jurídicas ou financeiras da entidade, como prestação de contas atrasadas, por exemplo.”

E complementou sobre o Projeto Sopão: “Com dito acima, o instrumento jurídico do pedido não permite a sua validação pela modalidade escolhida.”

O H2FOZ solicitou o valor que a binacional pretende destinar a projetos sociais em Foz do Iguaçu em 2024. Essa quantia não foi definida, já que muitos pedidos seguem em avaliação. “Só depois de todas as validações é que o valor e o número de entidades atendidas serão anunciados”, explicou a assessoria da empresa.

A Itaipu Binacional fez constar, em sua resposta, que “tem ciência do sofrimento e da vulnerabilidade dos moradores de rua, tanto que apoia projetos como o ‘Resgate’, da Comunidade Sagrada Família Dom Olívio Fazza, que atende moradores de rua em situação de drogadição”.

O convênio que será renovado em 2024 “prevê a construção da ala feminina que atenderá cerca de 40 mulheres em situação de drogadição com seus filhos. Além da ala masculina que já atende 40 homens. O projeto está orçado em R$ 12 milhões”, informou. Conforme a empresa, esse seria o primeiro na região a acolher mulheres com seus filhos.