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Claudio Dalla Benetta
Claudio Dalla Benetta
Em pleno outono, Argentina lança o Plano Primavera. Pobre Argentina!

"No llores por mi Argentina..." A triste melodia, tema do filme "Evita", vem a calhar pra descrever a crise atual do país vizinho. 

A letra até poderia incluir um "Llores por ti!" Porque não há muito o que fazer pra debelar uma situação caótica, quase catastrófica. Não chega a ser uma Venezuela, mas passa perto.

A inflação dos últimos 12 meses chegou a 54,7%, uma das mais altas do mundo. Só em março, o índice atingiu 4,7%, o que equivale a mais do que é previsto de inflação para o ano inteiro no Brasil e no Paraguai.

Junto com ela, a inflação, veio uma queda de 2,5% do Produto Interno Bruto, em 2018, e uma nova queda prevista pra 2019.

País rico

Buenos Aires em 1900, tempo de riqueza. Foto site Libertad y Progreso

A pobreza já aumentou para 32% da população. Logo na Argentina, país que nos anos 1920 era a sexta economia mais rica do mundo, à frente de Itália, Espanha e muitos outros países europeus. A classe média ostentava a riqueza em viagens ao exterior.

Dados coletados pela Maddison Project Database, vão além no passado, para mostrar que, em 1895 e 1896, os argentinos eram simplesmente os mais ricos do mundo. 

Pelo ranking da época, o produto per capita da Argentina era de 5.786 (não coloquemos a moeda, porque não há como definir o valor de então, só a proporção), à frente de Estados Unidos (5.569), Bélgica, Austrália, Reino Unido, Nova Zelândia e - veja só - Suíça, Países Baixos, Alemanha e Dinamarca.

Não é à toa que, entre nobres do século 19, era comum se referir a alguém com muita riqueza como "tão rico quanto um argentino".

A queda

Houve ditaduras, em meio a governos democráticos, houve crises econômicas sequenciais, inflação sempre alta ao longo das décadas e, hoje, a economia da Argentina está em 28° lugar no mundo. E em 78° se for considerado o PIB per capita, quer dizer, todas as riquezas do país divididas entre cada argentino.

A de agora, é uma tragédia a mais na história argentina. Esta última começou há cerca de um ano, quando o câmbio descambou. O peso desvalorizou tanto que sacudiu a economia inteira e levou o país a uma recessão.

O governo foi obrigado a recorrer ao Fundo Monetário Internacional, o que já significa o fundo do poço.

Vem pior

Mas sabe a altíssima inflação de março? Pois em abril virá ainda maior, segundo o próprio ministro da Fazenda argentino, Nicolás Dujovne.

Ele não disse, mas é que o governo acertou com vários setores da economia um congelamento de preços, medida que é normalmente antecedida por uma alta generalizada de tudo. Os empresários sobem pra congelar.

O congelamento de preços faz parte do Plano Primavera, anunciado esta semana, com um objetivo claramente eleitoreiro, já que haverá eleições em outubro e a imagem do presidente Mauricio Macri, ao contrário da inflação, não para de despencar.

Plano Primavera em pleno outono? É que a ideia é que os efeitos do plano comecem a ser sentidos na primavera, com reaquecimento da economia, menos inflação. Enfim, sonho de uma noite de verão. Ou de outono.

Nem Maurício Macri acredita no plano que seu governo anunciou. Foto El Independiente

Subiu antes

Além do congelamento de preços de produtos básicos, o plano inclui também também as tarifas dos serviços públicos e descontos em medicamentos.

E até um acordo com as operadoras de telefonia celular para manterem o preço das linhas pré-pagas por cinco meses, até 15 de setembro. Só que as empresas já haviam aplicado um bom reajuste neste mês.

O brasileiro já sabe o que é isso. Foram vários planos econômicos com congelamento de preços, todos fracassados, até que a inflação fosse debelada pelo Plano Real.

O que o governo Macri não teve coragem de fazer, em sua política ao mesmo tempo neoliberal e populista, foi atacar as causas da inflação.

Nem ele acredita

Aliás, vale ressalvar que o próprio presidente não acredita nas medidas que o governo está anunciando. Ele sempre foi contra intervenções desse tipo. Tanto que não foi Macri que as anunciou. Passou a bola pros ministros, tentando se resguardar de um quase certo fracasso.

E como ficam as tarifas públicas? Pois é, o governo absorve aquilo que o consumidor deixa de pagar. Medida que também nunca dá certo. Aumenta a dívida pública, aumenta a desconfiança dos investidores e, ao fim e ao cabo, uma hora ou outra haverá um "aumentaço" para compensar as perdas. 

Assim como o próprio Macri fez ao assumir. Para alinhar os preços das tarifas públicas aos custos, promoveu aumentos dolorosos na luz, nos combustíveis, no gás, etc, etc. 

Quando poderia ter feito isso aos poucos, enquanto adotava medidas para controle da inflação, sem sacrificar tanto justamente os mais pobres.

Há ainda outras medidas no Plano Primavera, nesta mesma linha de agradar os pobres e a classe média. E, também, para beneficiar as pequenas e médias empresas.

O Brasil

Para os brasileiros, que sempre veem os argentinos como rivais em tudo, o que importa a crise por que passam? Mas, se não somos solidários, sejamos então egoístas.

E o egoísmo mostra que a crise deles afeta diretamente a economia brasileira, que por sinal também não vai nada bem. Se a economia argentina está na UTI, a brasileira sofre enquanto espera vaga numa enfermaria lotada.

A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China e Estados Unidos. E somos superavitários no comércio exterior, principalmente com a venda de carros (que despencou nos últimos meses).

A Argentina em crise deixa em situação ainda mais difícil também para o Paraguai, que perde compradores em suas fronteiras.

E o Brasil perde nas exportações.

Lloremos por ti Argentina. Y por nosotros.

Em fotos e vídeos, veja como estão as obras do viaduto da BR-277

Desde a assinatura da ordem de serviço para a construção do viaduto da BR-277 com a Avenida Costa e Silva, já se passaram 195 dias (contando hoje). Se o cronograma for cumprido de acordo com o previsto em contrato, isto é, 540 dias até a conclusão da obra, o viaduto estará pronto dentro de onze meses e meio, aproximadamete.

Isto é, em março do ano que vem já poderemos circular alegremente por uma obra novinha em folha, que vai eliminar um dos congestionamentos mais severos de toda a extensão da BR-277, exatamente na entrada de Foz do Iguaçu.

Quer dizer, ainda vai restar outro problema a resolver: o chamado "Trevo do Charrua", acesso aos populosos bairros do Norte da cidade. Mas vamos com otimismo.

Por enquanto, praticamente não há reclamações de quem é obrigado a pegar o desvio pela marginal, a Avenida Olímpio Rafagnin, exatamente porque vê que a obra flui. E sabe que o transtorno é temporário, por mais que seja um... transtorno (pra que procurar outra palavra?).

Entenda o projeto

A empresa que venceu a licitação para construir o viaduto, Engenharia e Construções CSO Ltda, apresentou proposta no valor de R$ 15.877.129,00, abaixo do teto de R$ 20 milhões (e pouco abaixo até da previsão inicial feita pelo Fundo Iguaçu, responsável pelos projetos básicos e executivos, de R$ 16 milhões).

Quem desenvolveu os projetos foi a Engemin. A solução apresentada pela empresa prevê a construção de um viaduto com extensão de aproximadamente 700 metros. Serão quatro obras em curva, juntamente com uma rotatória sob esse viaduto e a conexão com as vias marginais existentes, que futuramente serão readequadas.

De acordo com o projeto, a BR-277 será elevada, permitindo que debaixo dela seja construída uma rotatória, possibilitando separar o trânsito da rodovia e o urbano e garantindo mais segurança aos usuários. 

Segundo o Departamento de Estradas de rodagem, o viaduto, já batizado de Lyrio Bortoli, em homenagem ao deputado federal que batalhou pela construção da BR-277, nos anos 1960 e 1970, deverá aumentar a capacidade de fluxo do local em cinco vezes. E atenderá à demanda de tráfego dos próximos 30 anos.

A obra

Antes de assistir aos vídeos feitos por James Humberto e publicados na página dele no Facebook, vale observar bem as ilustrações abaixo, do projeto do viaduto. É assim que vai ficar. Vale a pena sofrer por mais um ano?

Agora, mais duas fotos da obra, pra ver se seguem o projeto e o estágio em que estão. As fotos são da página no Facebook #viadutosfoz.

Os vídeos de James Humberto:

 

#viadutosfoz, obras em andamento 10/03/19 as 08:00 .

Posted by James Humberto on Sunday, March 10, 2019

 

#viadutosfoz

Posted by James Humberto on Thursday, April 11, 2019

 

Vídeo mostra ataque de senador paraguaio a colegas, chefe de polícia e até ministro

Este vídeo só pode ser mostrado num blog, mais descompromissado, porque a seriedade do H2FOZ não combina com o que você vai ver nas cenas ali debaixo. Basta dizer que o Paraguai inteiro está vendo e comentando.

Veja as manchetes das edições on line dos principais jornais paraguaios, na tarde desta terça:

"Vergonhosa briga no Senado" - ABC Color

"Payo atacou Lugo, o ministro do Interior e um delegado no Senado" - La Nación

"Paraguayo Cubas derrama água em Senador, em ministro e em comandante - Última Hora

O vídeo mostra, inicialmente, o que era pra ser mais uma sessão normal da comissão de assuntos constitucionais do Senado do Paraguai, que ouvia chefes de polícia sobre a atuação de policiais, tendo em vista um projeto de promoção. 

Participavam o ministro do Interior, Juan Ernesto Villamayor, o senador Fernando Lugo e o comandante da Polícia Nacional, Walter Wázquez, entre outros.

Durante quase duas horas, as perguntas e as respostas se sucederam com tranquilidade, mesmo quando era assunto meio complicado, como a questionada atuação policial na repressão aos manifestantes que protestavam contra o clã Zacarías, em Ciudad del Este.

Falou em Deus...

De repente, em sua vez de falar, o chefe da Diretoria de Feitos Puníveis, Econômicos e Financeiros da Polícia, delegado Aurelio Marín, agradeceu a Deus: "Para começar, quero agradecer a Deus por estar nesta comissão magna..."

Não deu tempo de continuar. O senador Paraguayo Cubas interrompeu-o aos gritos. "Eu sou seu chefe, c... (palavrão). Deus não tem nada a ver com isso". E, de sua poltrona, jogou no orador duas garrafas de água.

Marín ainda refutou: "Claro que tem a ver".

Aí Paraguayo Cubas levanou-se, foi até a mesa e jogou água na cara do delegado, entre agressões, que acabaram atingindo também o comandante da Polícia Nacional e o ministro do Interior. 

A um assistente do delegado, que tentou intervir, Cubas disse que não podia tocar num senador e jogou nele um copo de vidro.

O senador Fernando Lugo tentou acalmar o colega, mas também foi atacado. E sobraram xingamentos até pra senadora Lilian Samaniego, chamada de "lésbica, que paga suas parceiras com nosso dinheiro".

Veja o vídeo, mas abaixe o som. E tire as crianças de perto. Mesmo em espanhol, dá pra entender alguns palavrões cabeludos. E a violência é um espetáculo deprimente.

Fontes: ABC Color, Última Hora e La Nación

As Cataratas no documentário da Netflix: 53 segundos e duas frases

Sorte das Cataratas do Iguaçu que foram escolhidas pela Netflix para divulgar a estreia do documentário "Our Planet" (Nosso Planeta), uma produção britânica no ar desde sexta-feira, dia 5 - inclusive no Brasil. 

Na estreia, a rede de televisão americana ABC trouxe reportagens ao vivo das Cataratas, no lado argentino, divulgando as maravilhas que a Argentina divide com o Brasil (veja a matéria do H2FOZ clicando aqui 

Uma pena que, no documentário, as Cataratas do Iguaçu - mostradas em imagens belíssimas -, tenha ganhom meros 50 segundos, no episódio 7, intitulado "Água Doce".

Dá até pra reproduzir todo o texto do comentário sobre as Cataratas: 

Iguaçu - Essas são as maiores quedas de água do mundo. 
Milhares de toneladas de água jorram delas a cada segundo.
A maior parte da água de I
guaçu vem da Floresta Amazônica, a mil quilômetros de distância.

A imagem das Cataratas se funde com a da Floresta Amazônica.

Pra quem não entendeu o objetivo da série - ou pra quem não acompanhou desde os primeiros episódios-, ficou a impressão de que as Cataratas se formam na Amazônia. Parece até aquele filme hollywoodiano em que o herói está na selva amazônica e, a certa altura, desce de barco as correntezas do Rio Iguaçu até o vilão despencar nas Cataratas.

Mas existe uma palavra que vai explicar a série toda: "conexões".

As conexões

Pro exemplo que ficou mais claro. Um dos desertos da Austrália, o mais árido do mundo, a cada dez anos é alagado. As águas das monções numa região a a 2 mil quilômetros de distância vão se espalhando pela planície até alagar o deserto inteiro. A cada dez anos, hein?

As águas trazem junto peixes. E, não se sabe explicar como, uma espécie de pássaros sabe exatamente que é hora de migrar para o deserto, onde terão alimento em abundância e poderão procriar e criar os filhotes. Mas é preciso agir no tempo certo. O deserto voltará a virar sal e as aves terão que migrar 500 km - caminhando, os filhotes ainda não voam - para seguir em frente o tempo que lhes resta no planeta. 

Isto é uma conexão da natureza. As monções alagam o deserto, que recebe e multiplica a vida.

E as Cataratas com a Amazônia? A conexão existe, mas, claro, é um pouco mais sutil. Na verdade, a floresta amazônica garante o equilíbrio do clima no Centro-Sul do Brasil.

As chuvas intensas na Amazônia, aliadas ao calor, provocam uma evapotranspiração intensa da floresta, formando massas úmidas em grandes quantidades que se deslocam na orientação norte-sul da Cordilheira dos Andes. 

A cordilheira impede a passagem dessas massas, que se espalham então pelo Centro-Sul e também são "exportadas" para o Caribe e o Oceano Pacífico, o que coloca a Floresta Amazônica em condição de grande importância mundial quanto a sua influência no regime de chuvas sobre uma grande extensão territorial da América Latina.

Quando há uma grande seca no Sudeste e no Sul, obviamente isso irá afetar as Cataratas do Iguaçu. O Rio Iguaçu nasce na Serra do Mar, região de mata atlântica que é também influenciada pelas massas úmidas provenientes da Amazônia.

Assim se explica a frase do documentário, que ainda assim poderia ser um pouco mais explícito naquele trecho.

Sinopse

Sobre o documentário, vale a pena ler a sinopse apresentada pela Netflix, traduzida (como foi possível) do site britânico Eco-Age.

Antes disso, o site comentou: 

"Narrado por Sir David Attenborough, a nova série de oito episódios 'Nosso Planeta' está agora fluindo na Netflix e, como você poderia esperar, é uma festa para os olhos. Mas também é mais que isso. Com a conservação no centro de cada tomada, com o impacto humano em nosso planeta à frente e no centro da narrativa, o documentário fornece um aviso gritante de que a hora de agir é agora."

Agora, sim, a sinopse da Netflix:

"O ambicioso projeto de quatro anos foi filmado em 50 países em todos os continentes. Mais de 600 pessoas participaram de mais de 3.500 dias de filmagem, feitas na amplitude da diversidade de habitats ao redor o mundo, do remoto deserto ártico e misteriosos oceanos profundos às vastas paisagens da África e diversas selvas da América do Sul.

Nos últimos 50 anos, as populações de animais selvagens diminuíram, em média, 60%. Pela primeira vez na história humana, a estabilidade da natureza não pode ser tomada como garantida. 

A natureza é resiliente, as grandes riquezas ainda permanecem, e, com a nossa ajuda, o planeta pode se recuperar.

Em lugares onde a chuva cai abundantemente ao longo do ano, as florestas crescem. E, no calor dos trópicos, as florestas suportam uma riqueza de vida incomparável. Nelas vive a metade de todas as espécies de todos os animais terrestres. A diversidade de folhas é de tirar o fôlego.

As plantas geralmente dependem de animais para polinizar suas flores. E essas conexões íntimas são tão importantes quanto as grandes globais.

Em apenas 70 anos, as coisas mudaram em um ritmo assustador. As regiões polares estão aquecendo mais rápido que qualquer outra parte do planeta. O Ártico, no norte, é um oceano congelado, e o gelo marinho, do qual depende toda a vida aqui, está desaparecendo.

Dentro de 20 minutos, 75 milhões de toneladas de gelo se libertam. As geleiras sempre lançaram gelo no oceano, mas isso está acontecendo quase duas vezes mais rápido do que há dez anos.

Por todo o nosso planeta, conexões cruciais estão sendo interrompidas. A estabilidade que nós e toda a vida da terra dependemos está sendo perdida. O que fizermos nos próximos 20 anos determinará o futuro de toda a vida na Terra."
 

"Somos mais que 108". Gays paraguaios têm número de ódio como símbolo

Praticamente em país nenhum a vida de um homossexual ou transexual é mais fácil que a de um heterossexual. Mas é muito mais difícil num país conservador. E é impossível em alguns, como o Sudão, o Irã, o Afeganistão e outros de radicalismo religioso, onde o homossexual é condenado à morte.

Na África, há 33 nações onde é ilegal ser gay, e em 24 deles a lei se aplica a mulheres; na Ásia, são 23 países, em 13 dos quais a lei se aplica a mulheres. Nesses países, homossexualidade pode gerar prisão.

Países atrasados? Sim, até no tempo. Mas vale lembrar que, até 1967, a homossexualidade era crime passível de prisão na Inglaterra e no País de Gales. 

Mas fiquemos em países conservadores, onde homossexualidade não é crime, mas a tolerância contra gays, transexuais e assemelhados é mínima. É o caso do Paraguai (pior que no Brasil, embora seja só questão de nível "hierárquico").

A agência Reuters chegou a fazer matéria sobre homossexualidade no Paraguai, transcrita no jornal Última Hora, de Assunção. 

Com o título "LGBT se sente cada vez mais vulnerável no conservador Paraguai", a reportagem, assinada por Daniela Desantis, lembra que o país não tem leis contra discriminação sexual nem reconhece união entre pessoas do mesmo sexo (o que é lei no Brasil, Argentina e Uruguai, pra ficar só no Mercosul).

O conservadorismo vai além, no Paraguai. O Ministério da Educação tirou de circulação um guia sobre educação sexual voltado aos professores e o Senado se declarou "pró-vida e pró-família". Aborto? Só quando a mulher corre risco de vida.

Explica-se, portanto, porque vários senadores se retiraram do plenário, no ano passado, quando o Congresso paraguaio prestou homenagem ao filme paraguaio mais premiado da história, "As herdeiras", que mostra a vida (em crise) e o relacionamento de duas mulheres de meia idade, de classe alta.

As associações LGBT do Paraguai recebem frequentes denúncias de familiares que agridem adolescentes e jovens lésbicas e de mães que são ameaçadas de perder a guarda dos filhos por ter uma mulher como parceira.

"O contexto e a lógica do Estado para com a população LBGT é a mesma lógica que tinham na ditadura, é exatamente o mesmo tipo de política", disse à Reuters Simón Cazal, diretor executivo da organização SomosGay.

"Os veados (putos) não existem no Paraguai, essa é a frase que resume a visão que o Estado paraguaio tem sobre a população que não é heterossexual", disse ainda Cazal.

Os 108

Durante a época da ditadura do general Alfredo Stroessner, a repressão obrigava os homossexuais a manterem relações em segredo sob risco de expulsão do núcleo familiar, demissão do trabalho ou serem capturados pelas forças de segurança pública, onde teriam seus direitos violados em todos os níveis.

E aqui vem a história do número 108, hoje símbolo gay no Paraguai. Em 1959, o locutor e bailarino Bernardo Aranda (foto ao lado), muito conhecido em Assunção, foi assassinado e teve o corpo queimado.

Como era homossexual, a polícia do regime ditatorial simplesmente deduziu que o crime era passional, cometido por outro homossexual. E passou a prender pessoas "de duvidosa conduta moral", que foram submetidas ao escárnio público.

Exatamente 108 pessoas foram presas. Nunca ficou provado nada contra nenhuma delas, e até hoje o crime continua sem esclarecimento.

A partir dali, os paraguaios passaram a associar o 108, de forma pejorativa, à homossexualidade. Por isso, nunca mais foi utilizado em placas de automóveis, em telefones e na numeração de casas e apartamentos. 

Isso persiste até hoje, embora a maioria da população paraguaia já não saiba mais a razão. O preconceito não diminuiu, o que houve foi que a memória coletiva perdeu-se ao longo do tempo. No caso, ainda bem.

E o 108 virou bandeira.

Foto Última Hora (arquivo)

Cura gay

A organização SomosGay assegurou à Reuters que há registro da existência de "centros de reabilitação" clandestinos que propagam a "cura da homossexualidade". Um deles funciona na inóspita região do Chaco e outro na periferia de Assunção.

Embora a agência Reuters não tenha conseguido confirmar a existência destes centro, a reportagem ouviu a senadora opositora María Eugenia Bajac, autora do projeto para declarar o Senado 'pró-vida e pró-família", que se disse "encantada" de existirem estabelecimentos deste tipo no país.

"Devemos tratar esse desvio, ou essa inclinação, ou essa tendência, ou esse estilo, escolha sexual, qe a pessoa possa ter (...); pode-se curar, voltar a que seja reto e tenha a identidade correta de um ser humano", disse a senadora.

Trans

Um dos grupos mais vulneráveis da comunidade LGBT paraguaia é o das pessoas trans. A organização Panambí tem documentados centenas de casos de violência contra essas pessoas, a maioria por parte de agentes policiais, e 61 assassinatos nas últimas três décadas.

Poucos desses casos foram esclarecidos. Três, para ser exato, em que os autores confessaram os crimes. O resto é tratado com descaso pela polícia.

Fontes: Reuter, Última Hora e Agência Presentes

Foz e Ciudad del Este, as curiosidades que os números trazem

Divulgado o número de eleitores habilitados a votar nas eleições para prefeito de Ciudad del Este, no dia 5 de maio:  204.783.

Em Foz, na eleição de 2018, estavam aptos 178.270 eleitores. 

Os números são proporcionais à população. Enquanto Foz tem 258.824 habitantes (projeção do IBGE para 2018), Ciudad del Este tem 301.815 (projeção do congênere paraguaio, DGEEC, para 2019).

Sabe qual é a grande diferença? A população da capital do departamento de Alto Paraná aumenta a cada ano; a de Foz, diminui.

Em 2010, quando foi feito o último Censo do IBGE, moravam em Foz 253.962 pessoas. De lá para cá, o crescimento do número de moradores foi de apenas 1,06%.

Ciudad del Este tinha 274.340 moradores em 2010, número que cresceu 10% até chegar à população atual, na previsão do DGEEC.

De um lado, melhor para Foz. Com uma população estável ou que cresce pouco, é mais fácil atender às carências de educação, moradia, saúde e transporte, por exemplo. De outro lado, significa que a cidade não é mais atraente para quem busca oportunidades.

Perda populacional

Ao contrário, há um pequeno êxodo, que deve se acentuar nos próximos anos, de acordo com estudo feito pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social - Ipardes, do governo do Estado.

A projeção do Ipardes é que, até 2040, Foz perderá 15,6% de sua população e terá, então, apenas 219.207 habitantes.

O próximo Censo do IBGE, em 2020, poderá confirmar ou não esta tendência. Mas a previsão do IBGE já aponta que o crescimento está sendo menor que o esperado.

Para 2018, a previsão inicial era que Foz teria 264.044 moradores. Com a revisão, passou para 258.824, número 1,9% inferior à primeira estimativa.

Lá e cá

Foz do Iguaçu tem como principal atividade econômica o turismo, com tudo que dele deriva: hotéis e assemelhados, restaurantes, bares, lanchonetes, agências receptivas, etc, etc. Setor que emprega muita gente e, por sinal, vai continuar gerando vagas de emprego nos próximos anos.

Ciudad del Este não é só o comércio do microcentro, como a gente às vezes pensa. O setor industrial está cada vez mais forte, principalmente com as indústrias maquiladoras, muitas delas filiais de empresas brasileiras.

O ainda recente processo de industrialização, que abrange Ciudad del Este e sua região metropolitana, impulsiona o setor de serviços e o comércio voltado para os moradores locais.

Sem contar uma até poucos anos inesperada fonte de recursos e empregos: o setor de educação superior. Ciudad del Este tem, segundo estimativas, mais de 15 mil estudantes brasileiros só nos cursos de Medicina que suas instituições oferecem.

Isso também gera novas necessidades e oportunidades, o que inclui a implantação de mais restaurantes, livrarias, bares e discotecas, por exemplo.

A classe média de Ciudad del Este está em franco crescimento. Isso é interessante para Foz, especialmente - também - para o setor de serviços, que vai complementar o que é oferecido lá.

Per capita

Uma última curiosidade. A se confiar, claro, nas estatísticas, Ciudad del Este tem um Produto Interno Bruto de US$ 3,5 bilhões, que ao ser dividido por sua população representa US$ 11,5 mil per capita.

Foz do Iguaçu, em dados de 2015, tinha um PIB per capita de US$ 11,9 mil per capita. Com variações de câmbio, inflação e tudo o mais que se pode levar em conta, dá para concluir que as duas cidades têm uma renda muito próxima.

Claro, a oficial. Mais que Foz, Ciudad del Este tem uma "economia paralela", a do contrabando e do tráfico de armas e drogas, mas a maior parte do dinheiro obtido com estas fontes de renda não fica nem na cidade e nem no Paraguai, e sim vai alimentar os paraísos fiscais.

Mineração de criptomoeda já gasta mais energia que muitos países

A mineração de moedas virtuais prossegue a todo vapor no Paraguai, principalmente em Ciudad del Este, onde funcionam mineradoras de vários países, inclusive do Brasil, atraídas pela energia mais barata (quase metade do preço cobrado no Brasil).

Uma dessas mineradoras, a australiana AWS, foi notícia na semana passada porque uma de suas fazendas de mineração sofreu um incêndio que destruiu milhares de máquinas e servidores, com prejuízo de quase US$ 5 milhões. 

Ainda não se sabe o que provocou o incidente, mas a empresa não descarta a possibilidade de superaquecimento das máquinas. Note o detalhe: "milhares de máquinas e servidores". Fundada recentemente, a mineradora tem fazendas na China, na Rússia e no Paraguai.

Você quer ver "por dentro" como é uma fazenda de criptomoedas? Veja este vídeo impressionante feito por Jean F. Minglim, publicado no Facebook da mineradora AWS de Ciudad del Este:

 

bitcoin #awsmining #mineracao #bitcoinbrasil AWS MINING https://awsmining.com/register/JFM

Posted by Jean F. Minglim on Sunday, January 27, 2019

Pros leigos, é difícil compreender o que faz uma mineradora de moedas virtuais (a bitcoin é a mais conhecida). Mas vale lembrar que muita gente do outro lado da fronteira enriqueceu com elas. Há até brasileiros que hoje moram em mansões no fechadíssimo Paraná Country Club, em Hernandarias, graças à mineração.

Criptografia

A moeda virtual é também chamada de criptomoeda, porque é justamente aí que reside o segredo de seu funcionamento. Ela é criada por meio de uma lista crescente de registros, cada um deles protegido por criptografia. É totalmente garantida, portanto. 

É um sistema monetário sem qualquer controle de nenhum governo. É cada vez mais aceita no comércio internacional, embora ainda represente o risco de funcionar como um excelente meio de pagamento no mundo do crime.

O Banco Central do Brasil não autoriza o funcionamento das empresas que negociam moedas virtuais, mas não interfere na compra e venda de bens e serviços enre as partes que utilizam as criptomoedas. Quem compra ou vende assume todo o possível risco associado.

Embora não interfira nos negócios, o BC alerta que, se a criptomoeda for usada em atividades ilícitas, a pessoa está sujeita à investigação pelas autoridades públicas.

Mineração

Mas voltemos à mineração de moedas virtuais. Ela é o processo de adicionar registros de transações ao blockchain, uma rede que funciona com blocos encadeados muito seguros, referentes a uma transação financeira. Mas o que é blockchain e suas implicações? Melhor pesquisar onde a informação é mais segura. Tente o Tecnoblog, neste artigo.

Depois que você aprender um pouco mais, veja agora que, pra produzir criptomoedas, é preciso muita energia, para as dezenas, centenas ou até milhares de computadores que funcionam interligados na fazenda de mineração e para os sistemas de refrigeração. Se a refrigeração não funcionar bem, pode acontecer o que houve na AXW Mining.

A empresa informou que deve retomar a atividade normal em Ciudad del Este em uma ou duas semanas, "pois trabalhamos com prudência para garantir que qualquer servidor ou máquinas danificados sejam rapidamente substituídos.”

Muita energia

Como quase todo mundo sabe, produzir criptomoeda exige muita energia elétrica. Mas muita mesmo. Enquanto cresce o uso da criptomoeda virtual entre o grande público, aumenta também o consumo de energia causado por sua mineração virtual. 

Veja só: a mineração já consome mais eletricidade do que mais de 20 países da Europa, de acordo com pesquisa feita pela empresa britânica Power Compare.

Os pesquisadores descobriram que o volume de eletricidade necessário para se minerar a quantidade de bitcoins atual já equivale ao consumo de 159 países individuais, incluindo Irlanda, Croácia, Sérvia, Eslováquia e Islândia.

No continente africano, apenas três países consomem mais energia elétrica do que a mineração mundial de bitcoins -África do Sul, Egito e Argélia. 

Segundo a Power Compare, o consumo estimado de eletricidade atual da mineração de bitcoin é de 29,05 TWh, o que equivale a 0,13% das necessidades globais de energia elétrica. Isso significa que, caso a mineração da moeda virtual fosse um país, ele estaria classificado no 61º lugar no ranking mundial de consumo de eletricidade. 

E o país fictício subiria rapidamente nessa lista, já que, também segundo a empresa que conduziu o estudo, a mineração de bitcoin aumentou o consumo de energia em quase 30% somente nos últimos 30 dias.

Fechando o relatório, os pesquisadores apontaram que os custos anuais de eletricidade para a mineração de bitcoins estão estimados em US$ 1,5 bilhão.

Energia barata

Quando mais moeda virtual é produzida, maior o interesse dos mineradores de procurar países que vendam energia elétrica a preços baixos. Menor o custo da energia, maior o lucro dos mineradores.

O Paraguai é quase a "terra prometida" para a atividade de mineração. Graças à Itaipu Binacional e a Yacyretá (paraguaio-argentina), o país vizinho tem energia de sobra. Quer dizer, teria, se a distribuição fosse mais completa, já que há rincões às escuras e, ainda, apagões eventuais, por conta do consumo que sobe em horas de pico e não pode ser atendido pela Ande, a estatal de eletricidade.

Mas há outro problema: a energia é mais barata porque a Ande usa de subterfúgios para comprar menos energia vinculado do que utiliza e utiliza de Itaipu mais energia adicional, aquela que a usina produz acima dos 75 milhões de megawatts-hora (MWh) previstos nos contratos com o Brasil e o Paraguai. 

A bronca é da Eletrobras, que não concorda com a prática da Ande, que já virou imbróglio entre os dois países sócios na hidrelétrica.

O assunto é quase tão complexo quanto falar de criptomoedas (hoje é dia da complexidade blogueira), mas basta dizer que, com o subterfúgio da Ande, o Paraguai pagou no ano passado menos de US$ 25 o megawatt-hora (MWh) da energia de Itaipu, enquanto a Eletrobras (o Brasil) pagou quase US$ 40.

Vamos dizer que a Eletrobras e a Ande se acertem. A energia no Paraguai pode ficar mais cara, e menos interessante para a prospecção de moeda virtual. Ou continuar como está.

Mas o mundo real, uma hora ou outra, vai interferir neste mundo virtual.

Fontes: Webbitcoin, Canaltech, Banco Central e Arquivo